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quinta-feira, abril 07, 2011

Profissionais só referenciam casos paliativos "quase sempre em fim de vida"

A coordenadora da rede de cuidados continuados lamentou a “enorme resistência” que os profissionais de saúde ainda têm em “identificar precocemente” os doentes com necessidade de cuidados paliativos, afirmando que a referenciação faz-se “quase sempre em fim de vida”.
“Ainda não existe uma sensibilidade no Serviço Nacional de Saúde e no sistema de saúde para esta cultura de cuidados paliativos. A identificação [destes casos] é quase sempre no fim da vida, quando a pessoa está a morrer”, disse a coordenadora da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI).

Inês Guerreiro adiantou que a identificação tardia “significa que as pessoas vivem muito pouco tempo depois de entrar na rede. Algumas nem sequer são referenciadas e morrem no hospital sem ter intervenção”. “É muito importante que as pessoas percebam que os cuidados paliativos podem prestar-se durante um período em que a doença crónica, incurável, necessita de intervenção para melhorar a qualidade de vida, com o alívio do sofrimento e a identificação das necessidades, para aceitarem e se adaptarem à doença”, defendeu.

Segundo a responsável, existem 14 equipas intra-hospitalares de suporte em cuidados paliativos nos hospitais. O ideal seria uma equipa em cada hospital com mais de 250 camas. “De qualquer forma, foi inovador com a rede” a criação destas equipas, salientou Inês Guerreiro, exemplificando que existem “165 camas de cuidados paliativos na rede”, quando antes eram apenas 50 em todo o país.

O Alentejo é a região onde estão mais divulgados os cuidados paliativos, com todas as equipas de apoio domiciliário a prestarem estes cuidados. No Norte existem já algumas experiências de cuidados paliativos no domicílio, enquanto no Centro e em Lisboa é onde existe o menor número de camas. Mas a região de Lisboa é a que apresenta as maiores carências: mais de 100 pessoas esperam estes cuidados.

Este é um dos “pontos fracos” identificados no relatório da RNCCI relativo a 2010, além dos “recursos ainda escassos” e da necessidade de formação e treino dos profissionais, segundo Inês Guerreiro. Como “pontos fortes” apontou os “cuidados paliativos serem considerados pela primeira vez, em Portugal, parte integrante do sistema de saúde”.

Por outro lado, ao fim de quatro anos de RNCCI, há agora “um enfoque" nos cuidados domiciliários: "Temos cerca de 50 equipas no país que também prestam cuidados paliativos e temos agora cinco equipas dedicadas exclusivamente a este trabalho no domicílio”, salientou.

Inês Guerreiro adiantou que “o aumento da esperança média de vida, da incidência de neoplasias e outras doenças crónicas incuráveis, assim como uma nova exigência social que é neste momento uma obrigação dos sistemas de saúde, que se humanizam e estão mais atentos às necessidades das pessoas”, levou a uma nova vertente nos cuidados de saúde. Esta situação “exige uma nova valorização das necessidades, não apenas da doença e intervenção terapêutica, mas uma nova exigência do ponto de vista social”.

1500 profissionais vão receber formação

Mil e quinhentos profissionais da rede de cuidados continuados vão receber formação em cuidados paliativos e serão criadas quatro equipas domiciliárias no Porto, Planalto Mirandês e Mértola, através de um protocolo entre o Ministério da Saúde e a Gulbenkian.

O protocolo entre a Fundação Calouste Gulbenkian, a Unidade de Missão para os Cuidados Continuados Integrados (UMCCI) e o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa para o desenvolvimento de projectos na área dos cuidados paliativos é assinado hoje no Porto, dia em que se assinala o Dia Mundial da Saúde.

Através deste acordo será desenvolvido um programa de apoio na área da formação sobre dor destinado a médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde das unidades de internamento e das equipas integradas domiciliárias da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI).

Além da formação destes profissionais em três anos, este protocolo vai também permitir “reforçar as equipas domiciliárias de cuidados paliativos”, disse Inês Guerreiro, lembrando que apenas existia uma equipa específica para esta área e agora vão passar a ser cinco. As quatro novas equipas irão funcionar em diferentes unidades de saúde: Hospital de São João (Porto), Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Planalto Mirandês e Baixo Alentejo, mais precisamente em Mértola
 
(Jornal Público)