É só mais um bocadinho!

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Culpa

Quando a Nicha adoeceu, coloquei, no meu blog, o símbolo da luta contra o cancro do pulmão e a frase: ninguém merece ter cancro do pulmão. Esta frase fazia parte de uma campanha internacional sobre esta patologia e, para mim, nessa altura, fez todo o sentido.

Pelo que me foi dado ver (e partilhar, e sentir, e viver), de facto, aquele nível de sofrimento ninguém o merece. Mas, acho que não entendi verdadeiramente o alcance da frase. Ou melhor, não apanhei o outro significado que aquele “slogan” também encerrava.

Não sei se acontece convosco, mas a altura do duche é extremamente criativa. Para mim, é! Quando andava a estudar, era lá que resolvia aqueles exercícios mais complexos e que não tinha conseguido resolver até aí. Quando alguma coisa me chateia e não estou a ver como solucionar, vou tomar duche e a solução aparece. Ou, pelo menos, aparece uma sensação de paz relativamente ao facto de haver coisas sem solução. O que já é muito bom. Há, mesmo, coisas que não podemos resolver.

Esta conversa todo é para dizer que, hoje ao tomar o duche matinal, e apesar da hora ser imprópria para qualquer tipo de raciocínio (mesmo o mais elementar pensamento ainda se encontra congelado às 6h da manhã), consegui perceber um pouco mais do que está associado ao cancro do pulmão, a esta frase e a uma série de pressupostos que repetimos, talvez sem os analisarmos em profundidade.

Coincidência (Ou não. Possivelmente até não), os últimos contactos para solicitar apoio ao Projecto Luz têm surgido de doentes com linfomas ou cancro de pulmão. No caso dos pedidos de cancro do pulmão, esse apoio foi solicitado, maioritariamente, por familiares, o que também é significativo. E uma das questões que é sempre levantada pelos familiares (reflexo das questões levantadas pelo próprio) é a situação do tabaco e o que fazer com isso.

Verifiquei que os familiares fazem do fumar um cavalo de batalha. Todos são peremptórios em afirmar que o doente TEM que deixar de fumar. E não adianta muito dizer-lhes que, nesta fase, isso não faz grande diferença. Quer o argumento seja “o doente precisa de toda a sua energia para fazer face aos tratamentos que se seguem e não a pode desperdiçar numa batalha tão dura como o deixar de fumar”, quer o argumento seja “nesta altura, (já) não faz qualquer diferença se fuma ou não. Se deixar de fumar, não vai curar ou melhorar o seu estado”, a verdade é que os familiares acham que o cancro foi provocado pelo tabaco e desaparecerá se o tabaco também desaparecer. Isto tem implícito, embora inconsciente, um outro raciocínio.

Por outro lado, os doentes com esta patologia são muito renitentes em pedir e/ou aceitar qualquer ajuda. É como se sentissem que não a merecem... E quando se coloca a questão do tabaco, reagem muito mal. Ou “eu é que sei e ninguém me pode obrigar a deixar de fumar”, ou “não vale a pena preocupar-me; tenho o que andei a plantar ao longo dos anos”. Mas sempre com um sentimento de culpa associado ao fumo. E é aqui que a dimensão daquela frase se revela: ninguém merece ter cancro de pulmão. Ninguém merece ter cancro do pulmão, seja ou não fumador. Porque a culpa não deve fazer parte desta equação! Isto não invalida o conhecimento dos números e o papel decisivo que o tabaco tem nos casos de cancro nos pulmões.

Tenho batalhado muito com esta questão da culpa. E, se se lembrarem dos meus comentários a vários posts, verão que ando sempre com esta preocupação.

A culpa é insidiosa e matreira. Instala-se e põe-nos a funcionar a níveis estúpidos e sem darmos conta. E é de tal modo insidiosa e matreira, que até quando temos atitudes positivas ela pode estar (e, muitas vezes, está) presente.

Ora digam-me lá qual o raciocínio de fundo que está presente quando se diz: Não te podes ir abaixo. Pensamento positivo é meia cura”. Eu sei o poder da fé, mas estamos aqui a falar de outra coisa: estamos a falar de emoções. E então se ela se for abaixo? Não se cura? Uma coisa depende da outra? Qual é o sentimento que permeia estas duas situações? A culpa. Não se curou porque não teve força suficiente para manter as emoções em alta e estar sempre em cima com pensamento positivo.

Reparem, eu faço do pensamento positivo uma filosofia de vida. Pertenço ao grupo dos que vêem sempre o copo meio cheio em vez de meio vazio. E aplico isso a todas as circunstâncias da minha vida. Mas isso altera, positivamente, a forma como eu vivo as situações. Não condiciona os resultados de uma batalha como esta. Ajuda a vivê-la melhor, ajuda quem está ao nosso lado, mas criar o paradigma de que, para me curar, tenho que estar permanentemente em alta, fazendo orelhas surdas às mais variadas emoções que me assolam, é contribuir para incluir a culpa numa equação já de si tão pesada. As emoções são para se viverem. As dores são para doerem. As lágrimas são para se chorarem. Tal como o riso é para ser rido, a alegria para ser vivida e o cancro para ser combatido. Porque ninguém o merece. Não o merece quem desiste de lutar, não o merece quem não consegue vislumbrar o bem que persiste numa situação de doença, nem o merece quem, conscientemente ou não, se inundou de todos os factores de risco à sua volta. Porque não é só o tabaco que é responsável pelo cancro do pulmão. A gordurinha que ingerimos é responsável pelo cancro de mama. A carninha dos churrascos é responsável pelo cancro do estômago e dos intestinos. E por aí fora...

Em síntese: ninguém merece ter cancro e a culpa não deve fazer parte desta equação! A responsabilidade pela sua vida é outra coisa... e isso é que nos faz optar por uma vida saudável ou não.

(este texto está um bocado atabalhoado, mas já ando nesta luta há muito e já vi muita gente sentir-se culpada por não ser perfeita...)

10 Comments:

Atabalhoado ou não está perfeito para quem quer entender que a culpa não é de quem tem cancro, por fazer isto ou aquilo que o poderá provocar. Assim também, como dizes e bem, não é forçando quem o tem a deixar de fazer uma coisa que para tal, terá de ter força e energia, dispendo-a para lutar contra o cancro.
Na realidade, ninguém merece ter cancro, seja ele qual for.
Só temos mais é que ajudar e não criticar pelos actos já cometidos ou que se possam continuar a cometer.
O meu amigo João, partiu hoje e por ter sido fumador, não quer dizer que o cancro que o levou, tenha sido provocado pelo tabaco.
Bjs

20/1/11 21:43  

Olá.
Sou estudante do mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde na Universidade da Beira Interior. Estou a desenvolver a minha tese de mestrado com senhoras que tenham actualmente ou que já tenham passado por um diagnóstico de cancro de mama. A investigação é subordinada ao tema "Satisfação sexual e satisfação no relacionamento em mulheres com cancro de mama", por isso, peço que colabore e divulgue o link da investigação:

https://spreadsheets.google.com/viewform?hl=pt_PT&formkey=dFNzaDRueU8ydjIzcXdsU0JNeFAwT1E6MQ#gid=0


Obrigado,
Isabel Monteiro.

20/1/11 22:20  

Um texto que dá que pensar mas...queremos nós descobrir onde está a causa? Determinado tipo de vida pode predispor a que cancro apareça, temos de arranjar culpados: o tabaco, a gordura, o sedentarismo, poluição. E que dizer dos que apanham o cancro e toda a vida tiveram atitudes "ditas saudáveis"? Que pensar? Li à tempos- para veriar não me lembro do nome- um senhor que escreveu as suas experiências com vários cancros que conseguiu ultrapassar e até acho que ele tem razão quando diz: "todos somos portadores de bactéras, virus e outras coisas más; algumas pessoas desenvolvem a doença e outras não"
Ninguém merece ter cancro é verdade. A certeza é que ninguém pode dizer nunca : eu não vou ter!

Quando alguém que nos é chegado- no meu caso o meu pai, o meu primo e a minha amiga Cláudia, lutaram e não venceram o cancro queremos com todas as forças descobrir o culpado, o agente causador....como se isso os trouxesse de volta ou evitasse que aparecesse noutras pessoas. Antes de sermos "apanhados" tentamos ter uma vida o mais saudável possível....mas depois a vida também pode pregar partidas e aí podemos colocar em dúvida se vale a pena mudar tudo? Será? Não sei....mas que ninguém merece ai isso é uma certeza!

20/1/11 23:19  

Quando colocás-te esse slogan aqui por causa da Nicha. Associei á doença dela que sabia que fumava e as coisas estavam a caminhar mas... sem grandes certezas de cura.
Além disso, pensei, em qq tipo de doente que mm não fumando têm. Como ter uma cirrose e nunca ter bebido por exemplo!
ACHO QUE NINGUEM MERECE SOFRER PO QQ QUE SEJA A PATOLOGIA!
CANCRO NÃO!!!!!!
Bjokas

21/1/11 02:49  

Quando li este post,pensei quantas vezes eu própria tinha pensado,o que é que teria feito para ter isto? Alimentação?
Não,eu tinha uma alimentação cuidada,excesso de peso tb não,casos na familia,tb não bláblá...os médicos tentam sempre encontrar explicação!Mas,nem tudo tem explicação...e para mim o cancro não tem explicação.
Se todos nós temos células com predisposição para tornarem-se malignas,porquê que uns desenvolvem e outros não??

Beijinho

22/1/11 19:57  

Querida Manuela,
gostei muito de ler este post e dei por mim, a meio, a chorar.
Precisamente porque me vejo a braços com "culpas" dessas sobre alguém que perdi recentemente e que, ainda que indiorectamente, quase foi "culpada" de ter morrido... A minha Zézinha já morreu. Foram 5 anos de doença, os últimos dois, densos, angustiantes, medrosos.
Para conseguir encaixar as minhas ideias, muitas vezes recorri aos posts do Projecto Luz para compreender como acalmar a alma. A minha e as das pessoas que estavam ligadas a ela, não na cura (que nunca houve), mas na forma de melhorar a sua qualidade de vida e a nossa. Curiosamente, há dias, alguém lá escreveu que o ânimo é metade da cura. E eu fui questionar isso. Questionei porque, ao longo dos últimos tempos, me cansei de ouvir soluções como essa para a Zézinha... Era a vizinha, era a prima, era a colega, todos tnham uma opinião a dar, ainda que ninguém lha tivesse pedido. Que ela era fraca, que se fechava nela e na família, que não enfrentava a vida... E essas coisas magoaram-nos e magoam-nos. Porque, tal como eu referi no post do Facebook do referido Projecto, ninguém quer morrer. Ninguém quer perder ninguém. A doença da Zé era gravíssima. Cancro em surto por tudo quanto era orgão vital... Olhar a vida de frente? Claro que olhava! Nunca faltou a nenhum tratamento, nem aos que já sabia que eram para "inglês ver"... Mesmo quando todos sabíamos, pelos médicos, que não havia nada a fazer. Teve sempre palavras e sorrisos para o filho, para mim, para a minha Mãe, para todos. Deixando de o fazer apenas quando entrou em coma. Sofreu muito, mas teve sempre um sorriso. Fraquinho, às vezes triste. Mas teve. E fazerem-nos sentir que ela estar deitada no quarto era não encarar a vida? (...)
Depois morreu... E no dia do funeral reencontraram-se lá duas amigas dela. ambas curadas do cancro da mama. Abraçaram-se e choraram muito, uma no ombro da outra. Só lamentei a conclusão de uma delas: "Nós estamos vivas! Nós soubemos ser lutadoras, soubemos amar a vida e vencer."
Ainda que involuntariamente, magoaram as pessoas que perderam a Zézinha e que estavam sentadas no banco da frente. Eu estava lá sentada. E fiquei muito triste. Porque, afinal, a conclusão do desfecho era mais uma vez essa, esse "slogan" que quem vence o cancro agarra como seu e como chave-cura para tudo.
Ninguém quer morrer. Ninguém quer morrer de cancro nem do que quer que seja. Até hoje, não me restam dúvidas: não somos nós que vencemos nada. É a medicina. São as soluções médicas, as alternativas. E a sorte.
E ninguém se pode nem deve culpabilizar de nada.
Lembro-me de, em Leiria, quando a abracei no final do vosso espectáculo, me ter dito, tal como disse à jornalista Judite de Sousa "depois do cancro há vida". E lembra-se de eu ter contraposto, a chorar, a dizer "Não. Nem sempre há a vida." E a Manuela sorriu-me. Porque é sensível e sabe ouvir.
E realmente, depois do cancro, para a Zé não houve vida. E não é sempre assim. Mas ninguém tem o direito de fazer esvoaçar frases feitas aos olhos dos que sofrem, dos que lutam, dos que se esforçam e fazem das tripas coração, quando já têm uma sentença ditada pela medicina, pela falta de meios de cura, pela falta de soluções.
Ninguém quer morrer. com mais ou menos sorrisos, com mais ou menos lemas de vida. Ninguém quer nem devia morrer...
Beijos. Voltarei a abraçá-la em Estarreja, dentro de uma semana. E irei acompanhada de uma grande amiga. Que teve cancro da mama. E que está bem e feliz, graças a... Deus(?!?!)... Mas o que me importa é que está bem e que houve soluções médicas fantásticas para ela estar FANTÁSTICA!
Teresa

23/1/11 13:31  

Querida Teresa,

Podia comentar este seu comentário. Mas não é preciso. Entendo-a, tal como me entendeu. O abraço que lhe darei em Estarreja será a melhor resposta.
Depois do cancro há vida, para quem pode, sim. Para quem não tem essa "sorte" há outra vida (acredito eu) e a nossa saudade.
E a falta que nos fazem? Vamos vivendo com ela, vai doendo, vai adoçando... Vai... qualquer coisa que vai tornando essa falta um pouco mais fácil de viver.

Até um dia em que nos voltemos a encontrar (espero e acredito eu).
Um beijinho

23/1/11 19:39  

Beijos...

Teresa

24/1/11 16:30  

Querida Nela, gostei tanto tanto tanto do que li que te roubei a frase em que retomei a respiração. Obrigada nela. Está no FB. Se achares que é um abuso diz que eu tiro. Beijinhos e obrigada pela reflexão partilhada.

27/1/11 15:43  

Um dos melhores post do teu blog.

Vou passar a tomar banho às 6h, para ver se também fico assim iluminada.

parabéns.

27/1/11 16:39  

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