É só mais um bocadinho!

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Condição de admissão: andar espantado de existir

“Encontrei (...) o conforto de entender que não é cobardia aceitar a derrota de alguns sonhos e reconstruir o mundo, em função de uma realidade bem diferente desses sonhos.”.

Quem me dera esse conforto! Ao ler esta frase no livro - Banquete de textos - da Madalena (Parabéns pelo teu aniversário!), fui bruscamente recambiada para os meus dezoito/dezanove anos e percebi que ainda não mo tinha concedido (esse tal conforto).

Quando éramos crianças, normalmente na altura de entrarmos para a escola primária, todos nos perguntavam: Então, o que queres ser quando fores grande? Pena que a nossa tenra idade e consequente raciocínio não nos deixasse responder à letra: Porquê? Por acaso, tu és aquilo que querias ser? Perguntas por curiosidade ou por inveja? Por eu ainda ter um mundo inteiro de possibilidades e tu só teres a tua dura realidade limitada? Claro que isto era eu a querer ser hoje a criança de então... E ainda por cima, mal-educada!

Obviamente que, quando a visada pela pergunta idiota era eu, a minha resposta era bem mais simples: médica! Muitos miúdos diziam várias coisas conforme a fase em que estavam, a série de televisão preferida ou o último “herói” comentado à mesa do jantar. E de bombeiros a professores, passando por médicos, polícias (Os polícias tinham imensa saída! Santa inocência! Nem dinheiro têm para mandar lavar os carros...), bailarinas e relojoeiros, encontrava-se de tudo na mesma criancinha... Mas comigo não!

Eu sempre disse que queria ser médica. Não tive bonecas (Mentira, tive uma, mas não brinquei com ela. Ainda hoje existe impecável na sua constituição aborrachada...) e não brinquei às casinhas. Subi a poucas árvores e em todas as subidas rasguei os joelhos. Nunca andei de bicicleta até aos quarenta e tal anos, excepto numa tentativa frustrada e frustrante aí pelos quinze. Altura em que a vergonha pesava bem mais do que aos quarenta... Enfim, não fiz nada dessas típicas coisas infantis. Lia, lia muito, lia tudo o que apanhava, até os livros proibidos que estavam na parte oculta da estante. E brincava com seringas e agulhas a sério. Acreditem, não resulta muito bem dar injecções em batatas. Se quiserem experimentar, utilizem laranjas ou limões. É muito mais eficaz! Não havia seringas de plástico; aquilo era mesmo à séria: com seringas de vidro. E que dizer daquelas caixas metálicas onde as seringas e as agulhas eram guardadas?! Uma pequena pérola!

Eu também tinha acesso a algodão, álcool, comprimidos e diversos frascos (todos de vidro!). Segurança infantil, portanto... Lembram-se das mesas de cozinha que tinham um tampo de mármore e, por baixo, tinham outro tampo, normalmente de madeira, o que fazia com que tivessem duas superfícies: uma para comer e outra para guardar, sei lá, caixas com bolachas (as bolachas eram vendidas ao quilo e mantidas em latas giríssimas) ou até a caixa da costura? Pois que melhor hospital podia haver do que essa mesa?! Aquilo dava para ter dois doentes em simultâneo e despachar injecções em baixo e depois em cima sem ter que fazer grandes percursos...

Portanto, eu nunca quis ser outra coisa que não médica. Disse isso quando fui para a escola primária, disse isso quando entrei no ciclo, disse isso quando fui para o liceu e ainda ia a dizer isso quando entrei na Faculdade de Medicina... Fui muito coerente!

Nessa mesma faculdade andei, teimosamente, durante um semestre. Não por não ser o meu local (a minha praia, como se diz agora), mas por não ter condições para lá ficar. Falta de condições que todos, também teimosamente, me diziam que eu não tinha. O meu pai partiu quando eu tinha 16 anos, deixando-nos (a mim e à minha mãe) com a difícil tarefa de sobreviver sem os recursos financeiros para tal. Mais ou menos. Herdei um emprego, numa altura em que os empregadores ainda achavam que era sua obrigação garantir que os filhos dos seus empregados não passariam privações depois do progenitor partir (abençoados!). Comecei cedo a garantir que o sistema de segurança social tinha como prover às suas responsabilidades futuras (Se entrou em colapso, juro, não foi por minha causa. Eu contribuí desde 1978).

Todos me diziam que não iria conseguir tirar o curso de Medicina a trabalhar a tempo inteiro. Tinham razão, claro, mas dos sonhos não se desiste assim com tanta facilidade. Eu tentei, tentei muito, mas não consegui. E tive um longo caminho a percorrer até conseguir viver (bem) sem esse sonho. Substitui-o. Dei aulas durante muito tempo e encontrei, nessas horas a tentar que os outros soubessem o mesmo que eu, algum conforto. Afinal, estava a fazer alguma coisa boa pelos outros. Não era a dar-lhes saúde, mas era a dar-lhes conhecimentos e ferramentas para crescerem. Já era qualquer coisa. Depois, cheguei a chefe e, também assim, achei que podia fazer algo parecido com a entrega que imaginava ser a de um médico pelos doentes. Depois, adoeci e fundei o Projecto Luz para ajudar outros doentes.

Assim, fui substituindo o que não fiz por aquilo que fui fazendo.

Mas lá no fundo, sempre achei que podia ter sido mais teimosa. Que podia ter lutado mais e que podia ter aceite as ajudas – porque elas existiram – que me foram oferecidas. Mas além de teimosa, também era orgulhosa. Achei que, tudo o que conseguisse, havia de ser sozinha e pelo meu esforço. Orgulhosamente só, como o outro. E, tal como o outro, também caí da “cadeira”... bati com a cabeça no chão e nas paredes...

No entanto, para mim, isso já era um assunto resolvido e bem trabalhado interiormente, até ler a frase da Madalena: Encontrei (...) o conforto de entender que não é cobardia aceitar a derrota de alguns sonhos e reconstruir o mundo, em função de uma realidade bem diferente desses sonhos. O baque que senti no coração fez-me suspeitar que, afinal, não estava ainda resolvido. E este texto que escrevi agora mostrou-me que, se calhar, até já está...

12 Comments:

Resolvido está e estava, tu é que não querias aceitar. A tua teimosia de menina "mimada" e filha única não te deixou nem por alguns momentos. Ainda me lembro bem das palavras que disseste quando o António Pedro Ferreira nos disse que era médico e trocou a medicina pela paixão da fotografia. " E eu que queria era ser médica e não pude!"
Agora com as palavras da Madalena, chegas à conclusão que foi a tua teimosia que não te deixou.
Certamente também não era isso que tu querias bem lá no fundo e não seria essa a profissão que te iria realizar, tenho quase a certeza!!!
És o que és e sabes fazer bem. Tens a possibilidade de dar o que não poderias se fosses médica e a racionalidade tinha que falar mais alto. Também eu achava que queria ser médica e quando chegou a altura, o sentimento e a arte falou mais alto.
Continua a ser o que és, sem que os outros te demovam das tuas vontades. Bjs

6/1/11 18:03  

Querida Nela, voltarei para reler, pois o teu testemunho de vida aqui deixado é imenso e não consigo ficar-me pela primeira leitura. Dizes tanto de ti!!! Corajosa, como sempre! Para mim é uma honra ter contribuído para esta re-reflexão da vida!!! Beijinhos e muito obrigada. Volto logo, depois das aulas!

7/1/11 08:43  

Tenho de vir cá com mais calma. Mas fico contente por poder ler novamente as tuas escritas....é a primeira do ano. Que venham muitas pois....quem sabe não deverias ser escritora? Ainda estás a tempo.
Bjs

7/1/11 10:40  

A vida é mesmo feita destas coisas, mas és uma pessoa maravilhosa!!!
Is@

7/1/11 12:10  

Eu já estou a repetir e é como nos livros, há sempre qualquer coisa que não lemos à primeira. Este teu regresso à infância é comovente. Para mim é sempre um trajecto difícil e no regresso venho cheia de riscos e pó, de depósito vazio, com o motor a soluçar e bateria a pifar. Tu querias ser médica. Eu queria ser bailarina, princesa, cabeleireira ou "shop-assistant". tem tudo a ver com tudo.
Beijinhos, Nela!

7/1/11 17:37  

Hoje não vou saír de fininho, sem que ninguém me veja, tendo cuscado apenas.
Hoje vou dizer que, ainda bem que não é médica (perdoem-me os médicos ou médicas que possam ler o que vou escrever a seguir, mas...) não conheço nenhum que escreva coisas de uma forma tão deliciosa. Adoro aquilo que escreve.
Deveria, realmente, repensar e ser escritora... eu compro os seus livros e pelo que li, não serei a única.
Obrigado pela partilha e por favor continue a escrever.

Até breve.

7/1/11 20:25  

Amigas, vocês são umas queridas e só por isso é que gostam do que escrevo.

Bom? Bom é outra coisa... Mas tem algum mérito: é verdade!

Beijinhos e fiquem bem

7/1/11 20:46  

Isn't that the great mystery of life? It is...we have some passions to be...something...and the years show us something else. I prefer to see it as a gift often unknown. I wanted to be a writer. Now, that gift is over, and then I wanted to work with tough kids in a school setting. What am I doing? Raising 7 kids and though I wouldn't have chosen this initially, it's one of the most rewarding times of my life. In 10 years, I'll be doing something else. Always a mystery...

8/1/11 03:48  

Olá Nela

Que bom ler um texto tão lúcido, simples e "sumarento"! acho que ainda bem que não és médica, andarias perdida, incompleta, pois nunca conseguirias ajudar os outros como tens vindo a fazer. No meio das horas cansativas e extenuantes das urgências, entrando pela obrigação de veres um n.º enorme de doentes em apenas duas horas, porque a seguir irias ter que passar pelos teus doentes da enfermaria, fazer os exames complementares que tinhas marcados, tudo isso quase 7 dias na semana, sem fins-de-semana, com muita regularidade...acho que perdias a força e a genica que te caracteriza para ajudar os outros. Deixa....resolve lá isso, tal como a nossa Madalena nos diz: refazer o sonho, é um acto de grande sabedoria!
TeresaM

14/1/11 22:09  

Ok, vá, tá bem. Lá vais conseguindo escrever qualquer coisita. Tá bem, vá, ok ...

Bjs

Crisvic

16/1/11 22:17  

Nela, se eu soubesse deste seu sonho há mais tempo quem fazia de médica no RE era a Nela e não a Cristina... muito menos o Dr. Paulo!! ;o)
Foi bonito de ler Nela! Parabéns!

17/1/11 13:59  

Olá Nela, como eu me revejo na tua história, também era o meu sonho, mas eramos 4 irmãos e o meu Pai também falececeu com 47 anos, ajudei a cria-los para que tivessem eles o sonho.
Adorei o teu reviver o passado e porque não escritora?

Beijinhos e continua a escrever para nós

19/1/11 16:42  

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