É só mais um bocadinho!

sexta-feira, maio 15, 2009

Trilhos da Vida

Céu ou inferno. São estados de espírito da vivência diária que perante as decisões que tomarmos, definimos onde começa cada um deles.

Estamos no céu quando a doença não nos aflige, temos o essencial, o acessório na vida e os vícios e os prazeres da carne são os indicadores do bem-estar e da felicidade. Inconscientemente acreditamos nessa continuidade como se tivéssemos um escudo invisível que nos dá a certeza de um lugar cativo neste estado de espírito que elegemos no nosso dia a dia. Não pensamos em mais nada do que no nosso umbigo e, obcecados por esta vivência, nem sequer temos tempo para olhar ao nosso redor e ver a realidade da vida.
Passamos ao inferno quando algo inesperado acontece e que de alguma forma vai afectar o estilo de vida anterior. Podemos perder o emprego, ter um acidente ou revelar-se uma doença inesperada. Nesta condição criamos um novo conceito que constituirá a nossa definição de inferno.

Mas será que as definições retratadas têm de ser rígidas e não podemos transformar o inferno em céu e vice-versa mediante as acções e decisões que tomarmos quando nos encontramos em cada um deles?

Imagine o leitor que num teste de rotina médica recebe a notícia que está infectado pelo HIV. Definitivamente todos classificarão esta notícia como o inicio do “Inferno”.

Onde encontrar o “Céu” nesta condição de dor e sofrimento? Leva algum tempo mas é possível. Primeiro tem de viver o seu luto convivendo e entregando-se à sua dor totalmente, mas após algum tempo, há que reagir e lutar.

Aprende-se que a infecção tem tratamento o qual lhe poderá dar uma qualidade de vida semelhante à que tinha antes. Aprende-se a partilhar e a lutar para que outros não cometam erros semelhantes. Aprende-se a amar o próximo e a compreender todos os que nos rodeiam. Aprende-se que a Sida é o princípio de uma nova vida e não o fim da vida.

Cresce-se como ser humano, desenvolvem-se valores para os quais não havia tempo. Acabará por ser olhado com respeito e admiração e a vida começa a fazer sentido.
O “Céu” pode estar em qualquer lugar e em qualquer condição.

A SIDA abre as mentes e pode tornar os infectados em melhores seres humanos dependendo da sua atitude perante a doença. A capacidade de criar o seu Céu ou Inferno encontra-se no interior de cada um.

Texto retirado de Sidadania: http://www.sidadania.blogspot.com/

Onde está SIDA ou HIV, leia-se cancro ou qualquer outra situação extrema que classifiquemos de dramática ou terrível.

11 Comments:

Fico imensamente feliz pela publicação deste texto, num blog que igualmente retrata a dor e semeia a esperança nas mentes daqueles que perante a adversidade tantas vezes se entregam e sucubem face à evidência e sem lutar acham que tudo está perdido.
Ás leitoras/es do É só mais um bocadinho trago uma mensagem de esperança e nunca mas nunca desistam.
Pessoalmente e perante a adversidade e a dor que senti quando me foi diagnosticada a infecção pelo HIV compreendo como ninguém o efeito que a noticia de algo inesperado tem sobre as nossas mentes. Depois de ter convivido por um tempo com a dor e o fantasma da morte que pairava sobre a minha cabeça, decidi reagir e lutar. Hoje passados 13 anos posso dizer que sou feliz e que vivi este periodo mais intensamente que toda a minha vida pré-infecção. A SIDA e outras doenças que foram aparecendo não são de maneira nenhuma o meu "inferno". Um dia partirei, à semelhança de qualquer outro ser humano, portador ou não de qualquer patologia, contudo tenho a certeza que até ao momento derradeiro e em qualquer condição estarei no meu "céu" com os meus amigos e com todos os que me amam.
No seu interior existe a capacidade de criar o seu céu dentro do inferno que é o mundo em que vivemos.
Vivam intensamente cada minuto de vossas vidas, com coragem, fé e determinação.
Vosso amigo e companheiro na dor
Raul

15/5/09 09:11  

Nela, juro que mesmo antes de ler o teu apontamento no final do texto ia dizer a mesmissima coisa...

Este texto fala do Raul, que tem HIV, mas podia falar de alguém com hepatite, com cancro, com diabetes. Podia falar de tantas pessoas, não é?
Fala de vocês, por exemplo. Que mostram como encontrar o Céu dentro do Inferno da doença.

Gostei muito. Parabéns ao Raul

Jokas

15/5/09 09:17  

Sem dúvida!Embora seja por vezes muito difícil chegar a perceber isso e agir nesse sentido.
Mas, é possível e há muitos exemplos disso - como os vossos!
Ocorre-me repetir aquela "ideia fundadora" que, por palavras, é mais ou menos: "A LUZ só surge na presença das Trevas".

15/5/09 09:45  

*****

Medito muito no Céu que me rodeia.
Ainda hoje ao peq. almoço me abespinhei com o meu marido.
Ele:
- Isso são conversas das tuas amigas...
Os homens julgam que só as conversas "deles" são conversas de juízo... Felizmente a minha natureza não me dá para "talk soap ópera" conversa de telenovelas... isto de andar no Wall Street... (Continuando..) Não, penso muito no lado que a Nela retrata... o lado de lá do Céu... o que é menos Céu, o lado que nos obriga a como tem de ser aproveitada a vida para que o Céu nos venha ter à mão!...
Confesso sou extremamente critíca com quem "só" pensa que vida no Céu é ter dinheiro, pratas, quintas,joias... pois é, não sou perfeita, longe disso infelizmente... mas habituei-me a olhar para o Céu que vem de baixo...aquele que nos habitua a agradecer e a entender as pequenas coisas... dar um sorrizo a quem precisar dele, limpar a ferida ( que às vezes até nem tem bom cheiro), dar a mão a quem está num exame med. doloroso... ler um livro a quem não o pode fazer, dizer a um positivo... continue a viver... há mais vida para lá do HIV... aí quando me deparo com estas situações e pude entender .. aí sim então encontrei o meu Céu.
laura

15/5/09 13:54  

Este texto retrata o estado de espírito de alguém que até um qualquer dia, nunca tinha tido provações até que lhe bateu à porta a doença, que como dizes pode ser sida, cancro ou qualquer outra, que inicialmente pela dor e angústia que provoca, nos faz pensar que a nossa vida virou um inferno!
Esse é sem dúvida o primeiro pensamento que nos ocorre, mas ultrapassados os primeiros contratempos, à medida que a doença vai sendo vencida, pensamos, pelo menos eu pensei muitas vezes e ainda hoje penso, parece que sou uma pessoa melhor, que sei dar mais valor às dores dos outros, à vida, ao meu semelhante, e quem sabe se não valeu a pena o sofrimento para crescer como pessoa e ser uma criatura diferente para melhor!
Além de vos ter conhecido, é claro!...
Isabel

15/5/09 15:52  

A Maria Laurinda já vai hoje para casa... Pudera!!! Não a conseguem aturar lá... Querem dormir descansados esta noite... E alguém os pode condenar???
Boa!

15/5/09 16:22  

Parabéns, lindoooooo... o texto, é sem dúvida a mais pura das verdades, o que chamamos de céu hoje, amanhã é inferno, e vice-verssa e pelo efeito que faz de nos tornar-mos cada vez melhores e valorizarmos a o mais pequeno pormenor da vida, tais como um sorriso, a dor do outro, a dança de uma folha que cai com o vento, a nuvem cinza clara que existe no céu azul, por tudo isso, vale a pena ter FORÇA para criarmos o céu e resistirmos ao tal dito inferno.
BOM FIM DE SEMANA COM MUITO CARINHO PARA TODOS.
AMO-VOS
Natty

15/5/09 16:52  

Saint-Exupéry disse mais ou menos isto:"O Homem mede-se perante o obstáculo"...

15/5/09 18:03  

Olá boa tarde!

Ser portador de HIV nos dias de hoje não significa morte tal qual em muitas doenças!
Há anos atrás sim, era uma doença pouco conhecida sabe-se que foi transmitida dos macacos ao homem e não se sabia o que sabe hoje. Que só é transmissível por via venosa e sexualmente. Um beijo, uma abraço, um carinho, não tem que se desinfectar loiça, roupas etc...hoje é considerada uma doença crónica como tantas outras, desde que o doente tome a sua medicação e tenha uma vida saudável morrerá quando chegar a hora assim como qualquer pessoa sem doenças!
É importante que as mentes sejam mais abertas a esta doença e que a igorância deixe e hipócrisias deixe de existir!
Desejo-lhe tudo de bom e continue acreditar pelos direitos de igualdade!
Beijinhos Raul

E tu Nela obrigado por abordares esta questão!
Beijokas

15/5/09 18:03  

Vim empurrada. Pois vim, empurrada por Sir Raul, mas qual não foi o meu espanto querida Nela, ao perceber o blog em que me encontro. É que estive aqui pelo menos em Outubro/Novembro e perdi-me neste espaço. Li tanto e tantas coisas.. Textos, comentários, tudo. Porque fiquei calada não sei, passou-se o mesmmo quando frequentei o Sidadania pela primeira vez, li-os em silêncio, semanas a fio antes de conseguir dizer seja o que for.Mas a verdade é que me encontrava fascinada pela vida do Raul, pelo modo como deu a volta ao infortúnio.Não bastou estalar os dedos, foi um caminho longo cheio de batalhas, perdas, ganhos, risos e choros. E o resultado é um Raul fantástico que muito me orgulho de ter como amigo. Porque também me transformou, tornou-me mais pequenina, precisamente o caminho principal para nos tornarmos almas grandes. E sem nos darmos conta, suportamos muita coisa.
A todas vocês o meu maior abraço e que toda a Força do mundo vos acompanhe.

15/5/09 19:58  

M, veio empurrada e veio muito bem. Seja bem vinda. E ainda bem que desta vez não ficou silenciosa. Continue por aqui, se acha e sente que este cantinho lhe dá alguma coisa.
Beijinhos

16/5/09 15:16  

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