É só mais um bocadinho!

Domingo, Agosto 10, 2008

Carta para o Nelson

Lembra-se, Nelson? No início, quando começámos a trabalhar os dois, fazíamos sempre um intervalo a meio da manhã, bebíamos um café e planeávamos o dia, fazíamos o balanço do dia anterior... Chefe e subchefe em campo. Com o tempo, com as diferenças de pontos de vista, fomos deixando de o fazer.
Os anos foram passando e as nossas perspectivas foram-se afastando cada vez mais. Ao fim de seis anos, vim embora. Estava cansada. Estava desiludida. Estava frustrada. Os meus planos e os meus projectos não se tinham concretizado, à excepção de um ou dois.
Hoje, já passados mais oito (ou seja, conhecemo-nos há 14 anos...), sei que o que faço, como o faço, como concretizo os projectos, como acolho as mudanças e as novidades, se deve ao que aprendi consigo.
Forte, rijo, duro, frontal. E leal. O Nelson sempre foi leal com quem trabalhou e ambos sabemos bem como a maioria não merecia nem um pingo dessa lealdade, nem a tinha para consigo. Ou comigo...
Nunca, nunca irei esquecer como esteve ao meu lado, de mim e do Paulo. Foi uma rocha que nos protegeu e onde nos apoiámos. Sei que, muitas vezes, o fez com prejuízo da sua própria imagem. O Nelson não falhou! Esteve lá.
O seu “discurso” na minha despedida mostra como foram as nossas relações. Disse: “São 5 da tarde do dia em que se vai embora e a menina está a fazer o quê? Está a trabalhar! Não fez outra coisa enquanto cá esteve.”. Desejou-me as maiores felicidades no novo cargo e eu sei que as desejou de facto, apesar da mágoa por eu ter saído. Não foi uma traição, mas sei que a sentiu como tal. Não queria, mas nem sempre conseguimos que a comunicação flua e não se formem mal-entendidos... Quero, hoje, que saiba que lhe agradeço tudo o que me ensinou, todas as aulas que me deu, todos os gritos, todos os berros, todas as dores de estômago e todas as crises de colite que tive. Ensinou-me todas as defesas e os “golpes de rins”, a cautela com as costas – nunca se sabe de onde vem a faca... O meu “estilo” (presunção minha chamar-lhe assim...) bebe desses primeiros anos. Agora, mais velha, tenho a certeza de que algumas trocas de palavras mais aguerridas não teriam sido necessárias...

Quando me encontrou depois de eu ter sido operada, o seu abraço foi como o Nelson é: forte, rijo, duro, frontal. E leal. Temi pela minha cicatriz ainda tão recente!

Lamento, Nelson. Lamento muito. Lamento mesmo muito que a vida lhe tenha pregado esta partida mesmo, mesmo, ao virar da esquina. Quando o encontrei em Abril, e apesar de o seu discurso ser optimista e positivo, a sua cara mostrava como se sentia traído. Já se tinha sentido traído antes, com a descolonização, com algumas decisões que o molestaram, mas nenhuma traição foi como esta. A vida esperou por si na última curva e, quando novos projectos se desenhavam no horizonte (falámos do voluntariado), deu-lhe um desafio envenenado. E o Nelson soube (conscientemente ou só no seu coração) que esta batalha não ia ganhar. Estava escrito na sua cara, nos seus ombros descaídos, nos seus olhos sem brilho.

Lamento mesmo muito que tenha sido assim. Um amigo, que já foi e ambos conhecíamos, dizia que cada um tem as experiências de vida que consegue aguentar. E as suas costas eram largas e fortes para aguentar muito...

Hoje, quero só dizer-lhe Obrigada. Por tudo. Sei que me vai ouvir: hoje, aqui, lá, daqui a muito tempo, por aí... Obrigada. Obrigada, Nelson, até sempre...

31.07.2008 - 10h00

18 Comments:

A brightly lit candle for Nelson! Rest in peace. The lessons that we take from one another are forever, as you know well Nela. Many kisses to you, and many kisses to Nelson.

Jinhos

10/8/08 17:06  

Quando entrei para o Banco, em 1982, fui colega do Nelson. Mais tarde veio a ser meu chefe e tínhamos um pelo outro um grande respeito e amizade. Ambos sabíamos poder contar sempre um com o outro, até porque defendíamos - e praticávamos - os mesmos valores, infelizmente cada vez menos comuns...
Tenho muito pena e fico mesmo muito triste por si, Nelson.
O texto admirável que a Manuela escreveu diz tudo o que seria necessário dizer sobre si.
Eu comungo de tudo e também lhe agradeço (como bem sabe) a forma como esteve ao nosso lado; tal como a Manuela disse, foi uma rocha que nos protegeu e onde nos apoiámos.
Até qualquer dia, Nelson, receba um forte abraço deste seu operacional (como tantas vezes me chamava) e amigo
Paulo

10/8/08 17:56  

O vosso amigo Nelson está em Paz.

Beijinhos, Nela e Paulo

10/8/08 22:11  

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10/8/08 22:34  

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11/8/08 10:45  

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Beijinhos Manela.

11/8/08 11:14  

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11/8/08 14:06  

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12/8/08 01:00  

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Beijinhos

12/8/08 10:15  

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Beijinhos Nela e Paulo.
O que escreveste é lindo!
É nestes pequenos gesto e palavras que se percebe a bondade que tens para ti e para o proximo.

12/8/08 12:07  

Dói. Beijinhos para ti, Nela e para o Paulo.
Deixemos os nossos filhos escreverem nas paredes porque a vida deve ser vivida em termos mais absolutos, mesmo que para isso as "coisas" não fiquem tão certinhas, tão limpinhas, tão arrumadinhas. Que não seja preciso passarmos pelas duras experiências da doença para perceber que assim é que deve ser. Refiro-me à mensagem do Professor Randy Pausch. As pessoas vão, mas as lições ficam. Isso também aconteceu com o vosso amigo Nelson! Que bonita homenagem!

12/8/08 13:45  

marilu

12/8/08 14:35  

Olá, Manela!

Desde que fiquei em casa, falava regularmente com o Sr.Nelson ao telefone.Quando adoeceu, e como nos conhecíamos bem, as quebras que lhe fui notando na voz diziam-me mais do que as suas palavras, sempre optimistas. Mas como também sou uma optimista incurável, apesar de tudo, pensei que ele, aquela força sempre presente a apoiar-me na doença, aquele ombro amigo quando era preciso, aquela pessoa frontal e sincera, com uma presença e uma voz imponentes como a sua personalidade - ele não, não iria ser vencido! -foi o que pensei sempre,após cada conversa em que detectava, no mínimo, "cansaço". E soube hoje por acaso,quando,a falar com o Ribeiro,lhe disse que a seguir ia ligar ao Sr.Nelson porque já há 3 semanas que não conseguia apanhá-lo e estranhava que nem respondesse às mensagens que tinha deixava gravadas.Soube,titubeei e nem me lembro bem o que disse ao Ribeiro,só lembro do tom suave com que ele falou. A 1ª coisa que fiz foi ligar-lhe para o banco na esperança vã de ainda ouvir a sua gravação em voz forte :"Ligou para Nelson Pinto...". Claro que já lá não estava..Aprendi nos últimos anos a ouvir más notícias de olhos secos e cabeça erguida, por isso foi surpreendida que senti lágrimas a rolarem-me na face.
Até sempre, Sr.Nelson! Com um abraço forte como aqueles que sempre tinha quando me visitava no hospital e era ele a infundir-me esperança.
Beijinhos, Manela e Paulo!

14/8/08 00:39  

*****

Que bonita homenagem, Manuela.
Até estou a choricar, o que não é difícil...
É, é por isso - para não ter que o fazer mais tarde - que eu gosto de homenagear todos os dias os meus queridos.
Se calhar sou uma nostálgica, que se esconde no meu sorriso, nas minhas gargalhadas. Elas ecoam... (às vezes de mais) mas não são, quantas vezes, de bem estar mas de raiva, de impotência, de fraqueza de querer fazer e não conseguir chegar...
Agora, tonta que eu sou, estou a chorar por antecipação, por saber que um dia vou ficar sem os ombros largos da minha vida... já perdi tantos... também já vivi muito. Muitos pontapés, muitas tristezas, mas também coisas muito lindas. Pessoas tão belas que passaram, que me mimaram, que olharam para mim, que me entenderam.

E vou terminar, que eu hoje estou para aqui voltada... para o chorinho....

Para todos oa amigos, daqui, dali, de longe e até de "lá"...
beijo grande, hoje todo babado...
laura

15/8/08 10:00  

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16/8/08 19:40  

Olá Lúcia,

Fiquei muito contente por ver um comentário seu. Espero que venha mais vezes e que deixe, de vez em quando, uma palavrinha.

É uma forma de ir sabendo notícias suas.

Muitos beijinhos

16/8/08 20:06  

Olá Lúcia! Também fiquei muito contente por ler aqui um comentário teu. Muitos beijinhos para ti!

24/8/08 17:40  

Só há pouco tempo soube desta partida. Às vezes tenho pena que não precises de mim nestas alturas.

Mas precisas de mim noutras... E isso é tão importante! Senão, seria uma Pessoa inútil na tua vida.

Um grande beijo ao Nelson, que deve estar no mundo mágico onde está a minha mãe.

Adoro-te, querida.

17/10/08 00:00  

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