É só mais um bocadinho!
FELIZ NATAL
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Sexta-feira, Março 14, 2008
Histórias da minha vida
Estamos em 2006, mas esta história teve o seu início muito antes.
Há muitos anos que sonhava em acompanhar doentes terminais. Era muito claro que isso eu tinha mesmo que fazer, mais cedo ou mais tarde. Claro que toda a minha vida (família, trabalho, etc.) me dizia que ainda não podia dedicar-me a isso. Quem sabe, talvez um dia...
Sempre que procurava alguma associação que prestasse esse tipo de cuidados em Portugal, não encontrava.O tempo foi passando e como ele não nos pertence, não o controlamos, um dia, a vida resolveu apressar-me e foi-me detectado um cancro na mama. Quando essa situação ficou resolvida, também foi muito nítido que o que adiamos, à espera das condições ideais, pode nunca acontecer. Há que fazer o que é importante. Não esperar.
Já de regresso ao trabalho após a doença, entrei por acaso (?) numa livraria e os meus olhos saltaram para um livro. Comprei de imediato, embora nunca tivesse ouvido falar da autora ou do livro. Fiz uma pesquisa na Internet para saber quem ela era e o que descobri foi afinal aquilo que sempre tinha procurado e não tinha encontrado, porque eu não estava ainda disponível!Tudo se resolveu rapidamente: a formação e o início de uma aventura de Vida... a tentar lidar com a Morte.
Talvez estas palavras possam vir do tal sítio, da tal Fonte de onde brota a água que nos mata a sede. E assim conseguir contar-vos o essencial.Tentei ver o que sinto quando estou perante alguém chegado e que está a partir. Nos últimos tempos, isso tem acontecido bastante... E descobri que o principal é que penso que a pessoa está ali indefesa, sem recursos para fazer face ao sofrimento, à degradação. E se ela não consegue lidar com isso, então tenho que ser eu a conseguir.
Esse é o meu erro: pensar que cada um de nós recebe mais do que aquilo que pode suportar. Todos temos recursos suficientes para lidar com o que nos acontece. Um grande amigo meu, já falecido, dizia: se te está a acontecer é porque tens ombros para aguentar. E ele dizia isto com muito amor, e com a sabedoria dos anos que tinha a mais do que eu. Também ele teve recursos para lidar com a sua agonia e com a sua morte, e lidou bem.
Muitas vezes a nossa ânsia de viver em vez do outro, impede o outro de tentar viver. É isso que gera a angústia da impotência. O momento da morte e os que a antecedem são património do próprio. O que podemos fazer é estar presente, acompanhá-lo nessa hora (e só se ele quiser), proporcionar o conforto e a qualidade de vida possíveis.
E olhar.
Testemunhar um momento sagrado.
Um momento que é Divino.
A minha Princesa
A minha Princesa foi o meu primeiro "caso de sucesso". E o que quero eu dizer com isto de "caso de sucesso"? Foi a primeira pessoa que aceitou o meu contacto. Foi amigável, solícita e demonstrou-me que a minha companhia lhe agradava. E como eu precisava disso! O primeiro contacto com doentes terminais é muito difícil. Senti-me uma intrusa a perturbar o descanso de quem já o tem pouco por definição.
Mas a minha Princesa disse que gostava de conversar comigo, que isso a fazia sentir bem. Aceitou a minha massagem e agradeceu. Conversámos sobre a sua vida em África (ela nasceu no Lobito) e como tinha sido duro vir para Portugal, após a independência. Recomeçar tudo do zero. Nada de novo... Muitos Portugueses "retornados" poderiam contar uma história semelhante.
A minha Princesa também disse que não tinha medo de morrer e que já tinha feito tudo o que lhe era importante. Iria com tranquilidade e com o sentimento de dever cumprido. Mas parece-me que ela me estava a enganar... Agora que está muito mal, agarra-se ao que lhe resta da vida e não quer partir. Prefere (penso que seja isso!) sofrer porque acha que os familiares ainda precisam dela.
Gosta de estar sempre bonita e usa uma fita colorida nos seus cabelos encarapinhados. Pois, não vos tinha dito, a minha Princesa é mulata. Dona de uma grande beleza, sem rugas aos 74 anos, vaidosa e altiva. Claro! Como as Princesas. E pequenina, muito pequenina. Como as Princesas.
Agora já não fala comigo. Não consegue. Falo eu com ela.
Só queria que ela resolvesse tudo o que precisa resolver e ficasse em Paz. Mas isto sou eu a falar, porque ela, altiva como é, determinará tudo até ao fim. Para ela vai o meu primeiro agradecimento: Obrigada, Princesa Luana! Até sempre.
P.S. Escrevi este texto no dia 21. A Princesa iniciou uma nova viagem no dia 24. Despediu-se de todos os familiares (era muito acarinhada por todos) e partiu serenamente. Grandiosa.
Como só as Princesas!
posted by Nela at 14:07
Há muitos anos que sonhava em acompanhar doentes terminais. Era muito claro que isso eu tinha mesmo que fazer, mais cedo ou mais tarde. Claro que toda a minha vida (família, trabalho, etc.) me dizia que ainda não podia dedicar-me a isso. Quem sabe, talvez um dia...
Sempre que procurava alguma associação que prestasse esse tipo de cuidados em Portugal, não encontrava.O tempo foi passando e como ele não nos pertence, não o controlamos, um dia, a vida resolveu apressar-me e foi-me detectado um cancro na mama. Quando essa situação ficou resolvida, também foi muito nítido que o que adiamos, à espera das condições ideais, pode nunca acontecer. Há que fazer o que é importante. Não esperar.
Já de regresso ao trabalho após a doença, entrei por acaso (?) numa livraria e os meus olhos saltaram para um livro. Comprei de imediato, embora nunca tivesse ouvido falar da autora ou do livro. Fiz uma pesquisa na Internet para saber quem ela era e o que descobri foi afinal aquilo que sempre tinha procurado e não tinha encontrado, porque eu não estava ainda disponível!Tudo se resolveu rapidamente: a formação e o início de uma aventura de Vida... a tentar lidar com a Morte.
Talvez estas palavras possam vir do tal sítio, da tal Fonte de onde brota a água que nos mata a sede. E assim conseguir contar-vos o essencial.Tentei ver o que sinto quando estou perante alguém chegado e que está a partir. Nos últimos tempos, isso tem acontecido bastante... E descobri que o principal é que penso que a pessoa está ali indefesa, sem recursos para fazer face ao sofrimento, à degradação. E se ela não consegue lidar com isso, então tenho que ser eu a conseguir.
Talvez estas palavras possam vir do tal sítio, da tal Fonte de onde brota a água que nos mata a sede. E assim conseguir contar-vos o essencial.Tentei ver o que sinto quando estou perante alguém chegado e que está a partir. Nos últimos tempos, isso tem acontecido bastante... E descobri que o principal é que penso que a pessoa está ali indefesa, sem recursos para fazer face ao sofrimento, à degradação. E se ela não consegue lidar com isso, então tenho que ser eu a conseguir.
Esse é o meu erro: pensar que cada um de nós recebe mais do que aquilo que pode suportar. Todos temos recursos suficientes para lidar com o que nos acontece. Um grande amigo meu, já falecido, dizia: se te está a acontecer é porque tens ombros para aguentar. E ele dizia isto com muito amor, e com a sabedoria dos anos que tinha a mais do que eu. Também ele teve recursos para lidar com a sua agonia e com a sua morte, e lidou bem.
Muitas vezes a nossa ânsia de viver em vez do outro, impede o outro de tentar viver. É isso que gera a angústia da impotência. O momento da morte e os que a antecedem são património do próprio. O que podemos fazer é estar presente, acompanhá-lo nessa hora (e só se ele quiser), proporcionar o conforto e a qualidade de vida possíveis.
E olhar.
Testemunhar um momento sagrado.
Um momento que é Divino.
A minha Princesa
A minha Princesa foi o meu primeiro "caso de sucesso". E o que quero eu dizer com isto de "caso de sucesso"? Foi a primeira pessoa que aceitou o meu contacto. Foi amigável, solícita e demonstrou-me que a minha companhia lhe agradava. E como eu precisava disso! O primeiro contacto com doentes terminais é muito difícil. Senti-me uma intrusa a perturbar o descanso de quem já o tem pouco por definição.
Mas a minha Princesa disse que gostava de conversar comigo, que isso a fazia sentir bem. Aceitou a minha massagem e agradeceu. Conversámos sobre a sua vida em África (ela nasceu no Lobito) e como tinha sido duro vir para Portugal, após a independência. Recomeçar tudo do zero. Nada de novo... Muitos Portugueses "retornados" poderiam contar uma história semelhante.
A minha Princesa também disse que não tinha medo de morrer e que já tinha feito tudo o que lhe era importante. Iria com tranquilidade e com o sentimento de dever cumprido. Mas parece-me que ela me estava a enganar... Agora que está muito mal, agarra-se ao que lhe resta da vida e não quer partir. Prefere (penso que seja isso!) sofrer porque acha que os familiares ainda precisam dela.
Gosta de estar sempre bonita e usa uma fita colorida nos seus cabelos encarapinhados. Pois, não vos tinha dito, a minha Princesa é mulata. Dona de uma grande beleza, sem rugas aos 74 anos, vaidosa e altiva. Claro! Como as Princesas. E pequenina, muito pequenina. Como as Princesas.
Agora já não fala comigo. Não consegue. Falo eu com ela.
Só queria que ela resolvesse tudo o que precisa resolver e ficasse em Paz. Mas isto sou eu a falar, porque ela, altiva como é, determinará tudo até ao fim. Para ela vai o meu primeiro agradecimento: Obrigada, Princesa Luana! Até sempre.
P.S. Escrevi este texto no dia 21. A Princesa iniciou uma nova viagem no dia 24. Despediu-se de todos os familiares (era muito acarinhada por todos) e partiu serenamente.
Grandiosa.
Como só as Princesas!
Como só as Princesas!

















4 Comments:
No belo post "História da Minha Vida" achei lapidar a frase do seu amigo: "se te está a acontecer é porque tens ombros para aguentar" e fiquei a pensar nela.
E vou adoptá-la mas, ele que me desculpe, com de uma forma que me dá mais jeito:: "se te está a acontecer é porque tens ombros para sustentar e soerguer."
Sweetie,
I am very, very happy that you are sharing this story, and hope that you will continue to share the others, as well.
Hugs!
Cada vez te admiro mais. Um beijo enorme, enorme.
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