É só mais um bocadinho!
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Quarta-feira, Março 26, 2008
Histórias da minha vida... (2)
A Sra. Dona Lurdes
A D. Lurdes estava muito excitada no primeiro dia em que a vi. O sobrinho ia buscá-la para passar o fim-de-semana em casa. Estava muito bem vestida, penteada e levemente pintada. Era difícil manter-se quieta. Mas como também não era fácil movimentar-se, tudo aquilo gerava uma grande agitação no quarto.
Lá consegui que ficasse um pouco tranquila e pudéssemos conversar antes da sua saída. Tentei apelar à sua memória passada, já que a memória actual anda muito fugidia, e pedi-lhe para me contar um pouco da sua vida, o seu casamento, essas coisas.
Disse que tinha 3 filhos: uma rapariga com 45 anos, e dois rapazes gémeos, um com 42 e outro com 43... Hum... Gémeos... Não se conseguia lembrar do dia do casamento, mas assegura que tem marido. Não tem ideia de quantos sobrinhos tem, nem dos nomes.
Afinal quem a veio buscar para ir passar o fim-de-semana a casa foram os filhos. Os tais gémeos... ou não!
O mundo da D. Lurdes perde-se numa bruma sem memória. No rosto, tem as marcas de uma vida que deve ter sido desafogada e vê-se que está habituada a dizer as coisas só uma vez e ser obedecida. Nem a falta de memória, nem o facto de usar fralda alteram isso. Fico a olhar para ela cheia de ternura e a sorrir ao vê-la “refilar” por lhe terem cortado as unhas sem ser como ela gosta.
Na segunda visita que lhe fiz, já olhou para mim de forma mais amistosa, embora dando a entender que não é fácil conquistar a sua confiança. Levei-lhe uma planta para ela cuidar, uma vez que ainda se podia levantar. Julgava eu. Estes doentes perdem capacidades muito rapidamente e a D. Lurdes afinal já não se levantava sozinha. No entanto, aceitou a planta e a responsabilidade de tomar conta dela. No fim da visita, quando reforcei isso, e embora tenha demorado muito a concluir a frase, disse: Se trouxe a planta para eu tomar conta, então é para eu tomar conta! Dei uma sonora gargalhada e não pude evitar dar-lhe um beijo na testa... Grande mulher! É assim mesmo! Que é isso de duvidarem das suas competências?
O seu estado tem vindo a agravar-se. Cada vez se movimenta menos, a sua comunicação oral perde-se na procura das palavras, e no labirinto da memória não as consegue encontrar. Se lhe pergunto como se sente, responde: Eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei... E olha para mim como quem implora que lhe dissipem aquele nevoeiro das ideias que a faz repetir vezes sem conta o pouco que consegue articular.
No último dia em que a fui visitar, estava pior. No entanto, pela primeira vez, a sua alma procurou a minha. A boca não encontrou o discurso negado pela memória, mas os seus olhos procuraram os meus e encontraram-nos. O seu olhar foi profundamente lúcido e as suas mãos, que sempre aceitaram as minhas carícias sem as retribuir, pegaram nas minhas e afagaram-nas intensamente, demoradamente, observando-as até ao mais pequeno pormenor.
E assim, com as nossas mãos entrelaçadas e olhos nos olhos, sem disfarces e sem barreiras, disse-me clara e nitidamente: Eu quero partir. Beijei-a repetidamente e respondi-lhe: Pode ir Querida, quando quiser. Não se preocupe.
posted by Nela at 09:37
A Sra. Dona LurdesA D. Lurdes estava muito excitada no primeiro dia em que a vi. O sobrinho ia buscá-la para passar o fim-de-semana em casa. Estava muito bem vestida, penteada e levemente pintada. Era difícil manter-se quieta. Mas como também não era fácil movimentar-se, tudo aquilo gerava uma grande agitação no quarto.
Lá consegui que ficasse um pouco tranquila e pudéssemos conversar antes da sua saída. Tentei apelar à sua memória passada, já que a memória actual anda muito fugidia, e pedi-lhe para me contar um pouco da sua vida, o seu casamento, essas coisas.
Disse que tinha 3 filhos: uma rapariga com 45 anos, e dois rapazes gémeos, um com 42 e outro com 43... Hum... Gémeos... Não se conseguia lembrar do dia do casamento, mas assegura que tem marido. Não tem ideia de quantos sobrinhos tem, nem dos nomes.
Afinal quem a veio buscar para ir passar o fim-de-semana a casa foram os filhos. Os tais gémeos... ou não!
O mundo da D. Lurdes perde-se numa bruma sem memória. No rosto, tem as marcas de uma vida que deve ter sido desafogada e vê-se que está habituada a dizer as coisas só uma vez e ser obedecida. Nem a falta de memória, nem o facto de usar fralda alteram isso. Fico a olhar para ela cheia de ternura e a sorrir ao vê-la “refilar” por lhe terem cortado as unhas sem ser como ela gosta.
Na segunda visita que lhe fiz, já olhou para mim de forma mais amistosa, embora dando a entender que não é fácil conquistar a sua confiança. Levei-lhe uma planta para ela cuidar, uma vez que ainda se podia levantar. Julgava eu. Estes doentes perdem capacidades muito rapidamente e a D. Lurdes afinal já não se levantava sozinha. No entanto, aceitou a planta e a responsabilidade de tomar conta dela. No fim da visita, quando reforcei isso, e embora tenha demorado muito a concluir a frase, disse: Se trouxe a planta para eu tomar conta, então é para eu tomar conta! Dei uma sonora gargalhada e não pude evitar dar-lhe um beijo na testa... Grande mulher! É assim mesmo! Que é isso de duvidarem das suas competências?
O seu estado tem vindo a agravar-se. Cada vez se movimenta menos, a sua comunicação oral perde-se na procura das palavras, e no labirinto da memória não as consegue encontrar. Se lhe pergunto como se sente, responde: Eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei... E olha para mim como quem implora que lhe dissipem aquele nevoeiro das ideias que a faz repetir vezes sem conta o pouco que consegue articular.
No último dia em que a fui visitar, estava pior. No entanto, pela primeira vez, a sua alma procurou a minha. A boca não encontrou o discurso negado pela memória, mas os seus olhos procuraram os meus e encontraram-nos. O seu olhar foi profundamente lúcido e as suas mãos, que sempre aceitaram as minhas carícias sem as retribuir, pegaram nas minhas e afagaram-nas intensamente, demoradamente, observando-as até ao mais pequeno pormenor.
E assim, com as nossas mãos entrelaçadas e olhos nos olhos, sem disfarces e sem barreiras, disse-me clara e nitidamente: Eu quero partir. Beijei-a repetidamente e respondi-lhe: Pode ir Querida, quando quiser. Não se preocupe.

















15 Comments:
****
Bom dia, bom dia!
Claro que eu de vez em quando dou comigo a pensar:
- Bem, às tantas "apanho" um Alzheimer... a idade não perdoa!
Mas depois sensatamente penso:
- Se eu estou a pensar "nisto" ... é porque estou boa como o "milho"!
Mas a inquietude permanece.
Não queremos morrer muito, muito velhinhas?
Então?
Queremos ficar sempre frescas que nem umas alfaces?
Ora, eu tenho de confessar, às vezes já me esqueço dos nomes, a memória visual tem a pessoa, mas não encarreira com o nome...
E o leite ao pequeno almoço?... Meu Deus! Quase todos os dias o leite vem por fora... e depois a xatice para limpar a placa cerâmica!
E o telemóvel?
E as chaves? Onde estão?
O que é que eu vinha buscar?
E quando no meio do discurso me esqueço do que estava a dizer...
Meninas, uma pergunta?
Digam-me, estou a ficar meia... o que acham??
O que se leva desta vida é aproveitar todos os bocadinhos. E boa disposição.
sempre aqui,
laura
Olá Nela!
Deixa-me ajudar aqui a Laura, a uma pergunta que faz às meninas.
Não Laura, não estás a ficar meia...
Já estás completa.
( LOL,LOl,LOl... )
Um beijo, às duas.
Carmen.
Ps- (Sem sentido de ofensa- pura brincadeira)
Nela,
agora levando as coisas a s�rio, que � como este assunto deve ser tratado.
Uma das coisas que me mete mais medo � um dia eu ser uma certa D� Lurdes...principalmente na fase inicial.
Gosto mt da tua escrita e da maneira como abordas certas quest�es.
Um abra�o.
Carmen
Gostei imenso da forma como está escrito este texto e da forma ternurenta, sem pieguices mas meiga com que transcreveste esta "história da minha vida".
A idade e este tipo de doença não perdoa mas o incrivel é que no final a pessoa até está consciente e consegue demonstrá-lo pelos olhos e pelo contacto das mãos.
Acho que devemos valorizar imenso quem pode acompanhar estas pessoas desta forma tão terna e corajosa.
Agora, para a Laura: o facto de nos esquecermos de muitas coisas não quer dizer necessáriamante que estejamos a ficar com A(Alzheimer) ou P (Parkinson): senão já seríamos muitas- eu própria incluída. Acho é que agora temos tantas coisas que pensar, organizar, fazer, tanta informação que nos entram - voluntariamente ou não- pelos olhos, que acabamos por ir perdendo determinados detalhes.A vida sedentária com excesso de preocupações e insatisfações, bem com uma dieta deficiente, favorecem a perda de memória.
Agoraa grande verdade é mesmo essa "O que se leva desta vida é aproveitar todos os bocadinhos ".
Bjs
Nela,
A minha avó faleceu com Parkinson.
Conviveu com esta doença alguns anos, e de forma pouco pacifica, não aceitou de maneira nenhuma a dependência de outras pessoas.
Lembro-me bem, porque afinal não passaram muitos anos, apenas 8, da sua fragilidade e de como se lembrava sempre, sempre de mim!
Não reconhecia os filhos e netos na maioria das vezes, mas sempre que eu me aproximava, dava-lhe um beijinho, pegava-lhe na mão e fazia a pergunta: sabe quem sou?
- Tu és a Cristina!
E eu flutuava nesta resposta. Era a minha avó, aquela que me criou até eu ter quase 10 anos... a avó que perdeu memórias, muitas, e sempre se lembrou de mim.
E dizia-me sempre a mesma coisa, desde a minha infância: - estás tão magrinha, não te alimentas bem!
Obrigava-me a partilhar com ela o que eu lhe levasse para o lanche.
Já no final, as palavras não existiam, mas esse olhar, o olhar de que falam, estava lá. Abria os olhos quando eu falava e voltava a fechá-los. Mas eu acredito que me reconhecia...
Bjinhos
*****
Isalenca,
Obrigada pela confiança e estímulo.
Amiga nunca se engana!!!!
beijinhos,
laura
Livro, livro, livro, JÁ! Capicce, Nelinha?
Laura, querida, vai ao meu blog a um post chamado "Memória"...vais ver que ficas logo descansada!
Beijos,
Mimas
Olha Nela a minha avó faleceu com Parkinson, e sempre aceitou a doença como ela ia evoluindo.Nem por isso deixei de lhe confiar a minha filha ainda bébé, sempre conseguiu fazer tudo dentro das suas limitações, e sempre me ensinou que temos de nos habituar àquilo que Deus acha que somos capazes.Gostei muito da forma como abordas-te a doença, sem nunca lhe teres chamado pelo nome.Um beijo grande e um dia ainda vamos conversar, sobre alguns temas.Cinda
Toda a gente devia ter direito a uma Nela à cabeceira da cama!!!!
A minha Mãe não faleceu de Alzeimer, mas a sua memória também já não funcionava. Só esboçava um sorriso quando eu falava, o meu Pai e o meu filho!!!
Nela, tens mesmo que escrever um livro, disso não escapas!!
Beijocas linda
A Nela, é de facto uma pessoa, hummmmmm... hummmmmmm...hummmmmm, pronto é uma boa pessoa, já disse!
Gosma, é só desta vez!!!!
Na minha avó, a doença evoluiu muito rápido, e foi descoberta quando ela estava debaixo de uma pressão psicológica muito grande, talvez por isso, não existiu aquele percurso de habituação á doença.
Foi uma mulher extraordinária, criou 8 filhos, uma parte dos netos, trabalhou sempre, e só abrandou quando foi detectado tumor no marido.
Tinha um coração do tamanho do mundo, dava até o próprio casaco, se necessário, mas era uma sra. muito refilona. Só que uma refilona engraçada, com argumentos tão descabidos, acabava sempre por vencer todos.
Era a minha avó Ana, esta mulher.
Bjinhos
Olá Nela, parabéns pela tua coragem e capacidade de dar apoio às outras pessoas e em particular as que se encontram no fim de vida.
A minha mãe teve dois irmãos que morreram com Alzheimer e neste momento tenho mais um tio com a mesma doença. Sempre nos assustámos com esse facto e ela sempre pensou que também iria ter a doença. Os meus tios morreram numa fase ainda preococe da doença (ainda tinham mobilidade e comiam sózinhos) nunca percebemos porquê.
Infelizmente foi o cancro que a venceu e ela ainda sofreu muito por saber que mais um irmão estava doente.
Às vezes eu cheguei a pensar que seria preferível para ela morrer de Alzeimer pois assim não estaria consciente que estava a perder a batalha, ela lutou até ao último minuto. :(
jokas e força.
Que coragem, Nela.Beijinhos para ti
Oh pá, "prontos", já chorei... Vocês viram a fofice que a gajinha do Norte escreveu?! Estragam-me com mimos.
Eu vou continuar a postar algumas das histórias que fui escrevendo.
Quanto ao livro, ah pois, sim, logo se vê...
Nela
Força com o livro!! Eu ajudo a organizar uma Conferência de Imprensa para o lançamento!
Bjs
Estive a pôr a leitura em dia e fico sempre a chorar, mas com lágrimas sorridentes, porque o que nos contas é muito bonito, apesar das circunstâncias. Vês o que de mais bonito existe dentro de cada pessoa e, através das tuas palavras, as senhoras donas Lurdes e princesas Luanas e os senhores Jacintos serão sempre recordados. Por momentos, é como se os tivesse também conhecido. Obrigada. Escreves maravilhosamente bem e também estou aqui a reclamar por um livro teu! Beijo enorme :)
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