É só mais um bocadinho!

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Coincidências... (9)

31.10.2005

Já estás em casa. Estiveste internada um mês e uma semana. Já recuperaste a tua memória. Temos conversado bastante. E como é bom voltar a conversar contigo...
Já não precisas deste meu registo, que pretendeu ser a tua memória enquanto a não tiveste.

Beijinhos

FIM
________________

O que se segue, escrevi num dos primeiros posts deste blog e abrange o mesmo período:

Então, e agora...?

No SPA da Carla. Sim. Foi no SPA da Carla que tudo começou. Dia 8 de Outubro de 2005, sábado. Preparei-me para a massagem que era a minha recompensa pela semana de trabalho, de horários, de noites curtas, de alguns projectos adiados. Saltei para a marquesa e senti uma impressão/dor no peito esquerdo (ainda não estava habituada a chamar-lhe mama…). Fui com os dedos precisamente ao sítio. E eu sempre a pensar que não conseguia identificar o que estivesse a mais… Quando é altura, identifica-se!Isto não estava aqui, nunca senti, o que poderá ser? Decidi, de imediato, marcar a mamografia e a ecografia mamária na segunda-feira. Não ia esperar nem um dia. Até lá, não iria pensar no assunto. Não valia a pena. Já tinha apanhado um ou dois sustos com uns quistos sem importância. Isto poderia ser só mais um. Ou não… Logo veria.O resto do fim-de-semana não foi tão descontraído como eu gostaria e não foi tão preocupado como poderia pensar depois daquela descoberta. Passou-se.Uma semana de espera até fazer os exames. A mamografia correu bem, ou seja, não doeu muito! Já a ecografia teve momentos de alguma angústia. O médico perguntou-me o porquê de estar a fazer um exame oito meses depois do anterior que tinha sido de rotina. Expliquei-lhe a minha descoberta e ele disse que o que eu tinha palpado era um quisto sem importância. O mesmo não se podia dizer de um nódulo que estava no quadrante externo da mama. Parecia-lhe suspeito. Na sua opinião, devia ser biopsado para esclarecer qualquer dúvida. A minha médica poderia propor aguardar uns tempos e repetir exames, mas ele achava melhor não protelar e fazer a biopsia.A consulta foi tranquila. A médica disse que iria fazer a biopsia, mas sem preocupação. Era um fibroadenoma, com certeza. Fiz a biopsia no Hospital Amadora-Sintra. Estava muito nervosa, mas foi indolor. Aguardei uma semana ou um pouco mais por nova consulta em que a médica já saberia os resultados.Quis ir sozinha à consulta (16 de Novembro de 2005). Insisti com o meu marido que só ia saber o resultado de um exame, não era preciso ajuda… Mas estava uma pilha de nervos. Esperei mais de uma hora; a médica estava atrasada. Mais nervos ainda… Finalmente, chegou a hora de saber. A médica estava muito bem disposta; brincou com a minha cara de preocupada e finalmente telefonou para o Hospital. No meio de uma conversa animada, foi pedindo para consultarem o meu processo.Eu não sei se ouvi ou só pressenti! Juro que não ouvi o resto do que a interlocutora do lado de lá dizia, mas aquilo ouvi. Ou só pressenti… Carcinoma ductal invasivo. Ainda consegui ver a mudança de expressão da médica e o seu esforço por manter a conversa normal. Depois já não vi mais nada. As emoções dispararam e só consegui perceber que estava à beira de um ataque de coração (era muito estúpido ter acabado de receber um diagnóstico de cancro e, no mesmo momento, morrer de ataque de coração!). Quis pensar e não fui capaz. Achei que, naquela altura, devia fazer algumas perguntas práticas; era normal querer saber o que significava, o que havia a fazer depois, quais as hipóteses de tudo correr bem, enfim perguntas… Não fui capaz de pensar em nenhuma. Não fui capaz de pensar em nada. Ao fim de algum tempo, consegui articular umas palavras: Então, e agora? E mesmo estas palavras absurdas tinham requerido todas as minhas últimas forças. Agarrei no fax com o resultado, saí do consultório, deixei cair o telemóvel, o fax, o xaile; acho que me deixei cair a mim. Paguei, guardei o recibo e saí para a rua. Não sei bem como…A rua foi um sítio bom para chorar. Ninguém me incomodou, nem me perguntou o que tinha. Liguei para o meu marido e lá consegui pedir-lhe para me ir buscar. Depois liguei para uma amiga e deixei-lhe no gravador uma mensagem curta: tenho um cancro. E muitos segundos de soluços convulsivos (esta amiga que refiro é a Nicha).O instante em que sabemos que temos um cancro não tem descrição... Para mim, foi uma avalanche de emoções (nem as consegui identificar) que me deixou soterrada debaixo de... Nem sei! Primeiro, não é possível aquele diagnóstico ser nosso, claro! Depois, e repentinamente, deixa-se de saber o que isso significa. Para, no instante seguinte, sucumbirmos ao que isso implica. A seguir a mente pára e não raciocinamos. O coração dispara e não se sabe se é medo, angústia, pena, pânico... sei lá! Isto acontece em alguns poucos segundos... Só que continuamos vivos e é suposto respirarmos, mexermo-nos, fazermos qualquer coisa… O quê? O que se pode fazer depois disto?

Começa-se por fazer o mesmo do costume e isso é muito estranho.Eu chorei, chorei, chorei na rua. Depois chorei, chorei, chorei agarrada ao meu marido. Chorámos, chorámos. Depois, as lágrimas acabam e começamos a pensar no que está à volta. Como vamos contar isto a uma filha? E como se conta isto a uma mãe que perdeu o marido com a mesma doença? Pois! Conta-se. Directamente, sem floreados, acrescentando que vai correr tudo bem, que foi tudo apanhado no início, que actualmente estas situações se resolvem com alguma facilidade… Todos os lugares-comuns de que nos conseguimos lembrar foram utilizados. E, embora todos tentassem parecer fortes, chorou-se mais durante algum tempo. Depois, numa tentativa de acreditar nos lugares-comuns, todos enxugaram as lágrimas e dispuseram-se a enfrentar a adversidade. Este mecanismo, que o ser tem de fingir que acredita nas mentiras que inventa, tem-se revelado um poderoso instrumento para a humanidade. Pode parecer ironia, mas não é. É uma valiosa ajuda para nos aguentarmos nos primeiros embates, porque na realidade, naquela altura, nada sabíamos sobre a doença, o seu alcance, em que estágio estaria, que intervenção era necessária. Por isso, foi com esta esperança sem bases que passámos mais um dia.Enviei uma mensagem aos meus amigos contando o que tinha, dizendo, mais uma vez, que tudo ia correr bem, e acrescentando que não queria falar com ninguém. Depois voltaria a contactá-los. Respeitaram, claro, ou não fossem eles as pessoas importantes que me têm acompanhado ao longo dos anos… Ao fim da noite, apeteceu-me encostar a cabeça no ombro do Zé, o meu irmão por opção. Telefonei, ele tinha saído para apanhar ar e digerir a notícia, mas apareceu ao fim de meia hora. Depois das lágrimas e dos abraços iniciais, acabámos a falar das mais variadas coisas e, estranhamente, não era de doenças…No dia seguinte, o despertador toca, toma-se duche, enfrenta-se o trânsito, vai-se trabalhar. Qual é a diferença? Como é que na véspera estava condenada à morte e agora estou a fazer o habitual?Como é que, ao longo do dia, os problemas de trabalho exigem a mesma atenção, como é que o diálogo com os colegas se processa da mesma forma, como é que vamos almoçar com o mesmo interesse? É força? Coragem? Inconsciência? Negação? Ou Fé?A forma como, passado o primeiro impacto, reagi a tudo constituiu um mistério que me deu algum trabalho a analisar. Acho que inicialmente reagi com o peso que o colectivo (eu incluída) atribui a este tipo de doença; depois de se ter tornado uma realidade para mim, comecei a reagir naturalmente e não foi o fim do mundo… Por mais estranho que me tenha parecido!

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Coincidências... (8)

18.10.2005

Olá Linda,

Ontem, pela primeira vez desde que estás internada, estiveste sentada num cadeirão. Saíste daquela cama, finalmente. Não te vi; falei com o J que estava super contente. Disse que tinha estado a conversar contigo e que até o tinhas insultado. Sinal de que estavas melhor, segundo ele. Que vícios de relacionamento não terão vocês! Refilaste porque querias um cigarro... Céus... E refilaste porque querias que ele fosse a casa esperar a C que chegava da escola na carrinha e depois voltasse para o pé de ti. Como ele não podia voltar, ficaste zangada... A evoluir bem, portanto!

No entanto, parece que continuas a manter um discurso coerente, entremeado com verdadeiros disparates sem sentido. Segundo os médicos, a situação é normal tendo em conta as anestesias e os sedativos que tomas, bem como os teus medicamentos que não estás a tomar... Evitei falar ao J em padrão; já deve ter ouvido isso de ti vezes demais, se é que eu te conheço...

Depois digo-te como estás hoje. Beijinhos


26.10.2005

Olá Maria Nicha,

Há muito tempo que não te escrevo. Já estive contigo duas vezes depois disso. No domingo, dia 23, estive mesmo dentro do quarto contigo. Dei-te o lanche, bebeste água, massacrámos os enfermeiros com piadas parvas e foi muito bom ver-te e falar-te novamente.

O J tem falado comigo sobre o “depois” do hospital. Está muito receoso. Disse também que tu não te lembras dos meses antes do acidente. Sei que a tua vida estava vertiginosa demais, mas eu não acredito que não te lembres. Acho que estás só a fugir à realidade. A propósito, onde estão esses teus novos amigos? Nenhum deles aparece. É disso também que queres fugir? De saber que esses tais amigos desaparecem quando a coisa fica preta? É uma desilusão, sem dúvida. Mas a ilusão é uma mentira, não é? Logo, a desilusão é um passo a caminho da verdade. Vês? As frases feitas são o meu forte...

Já fiz a eco e a mamografia. Parece que os caroços (afinal são dois e não só aquele que eu tinha encontrado) têm um aspecto “duvidoso”. Provavelmente, terei que fazer uma biopsia; a médica o dirá. Tenho consulta para a semana. Isto está a dizer-me qualquer coisa. Eu vislumbro o que é, mas tu fazes-me falta para me ajudares a perceber. Estes bloqueios (e por agora chamo-lhes bloqueios) são situações que não fluem, que ficaram ali impedidas de se expressar. Porquê? Porque são amargas de mais para virem ao consciente? Porque eu quero desistir de cá estar? Porque eu quero ser a heroína de uma batalha pela vida e aparecer aos olhos de todos como a brava que venceu a doença? Porquê? Eu sei que quero ficar cá. Céus! Estes caroços vão desaparecer. É esta a minha co-criação. Eles vão desaparecer e eu vou aprender a viver de acordo com novos valores e com uma nova prática. Na verdade, de acordo com uma nova vida. Ainda não sei como essa vida vai ser, ou melhor, não sei como conseguir chegar a essa vida, mas acho que sei como ela é. É em um clima de serenidade e de paz que eu quero viver a minha vida e dar isso aos que me rodeiam. Isto é o que eu quero construir e vou construir. Portanto, não preciso de caroços. Já sei o que quero e vou caminhar para alcançar isso. Como? Não sei. A parceria é mesmo para tratar disso.

Desculpa, este trecho foi para mim e não para ti. Mas como não falo contigo sobre isto (e porque não?), escrevo. Tu percebes-me. E vou mesmo falar contigo. Estou a poupar-te de quê? Que estupidez. Eu também preciso de ti.

Uma beijoca

terça-feira, janeiro 29, 2008

Coincidências... (7)

17.10.2005

Olá Maria Bicha,

Fofinha, já lá vão uns dias desde que te escrevi a última vez. Fui ver-te no dia 12, 4ªfeira, tal como previsto, e estavas acordada. Entrei no quarto, pela primeira vez, e estive contigo. Estive mesmo contigo. Ainda não tinha estado. Ali estava a minha amiga, com o humor de sempre, claro que desconto feito às circunstâncias, mas eras tu. Não eras uma imagem atrás de um vidro, sem hipóteses de comunicação efectiva. Percebi o que disseste (quase tudo...) e pude responder-te, dar-te mimos. Enfim, estarmos juntas. Comeste a tua primeira papa. Não te rias: é tão importante como o primeiro banho! Mais tarde, apareceu a L e a M. Fiquei a fazer de tradutora, para que elas te pudessem entender. É complicado perceber o que dizes através da máscara e daquele maldito vidro.

Fiquei tão contente como é possível ficar dentro da situação. Depois, sei que o J a seguir já não te viu acordada e no dia seguinte também não. Sexta-feira, estiveste mais desperta e conversaste com ele, embora, às vezes, não digas coisa com coisa. No sábado, tiveste a visita da T, mas estavas adormecida novamente.

Tens a próxima operação marcada para dia 21 (6ªfeira). Ontem, domingo, fui ver-te. Não me deixaram entrar, mas vi-te através do vidro e estavas acordada. Disseste, com um ar muito aflito, que precisavas de falar comigo e tinha que entrar. Não foi possível. Só o marido. Depois falando com o J, ficou combinado que eu posso entrar sempre; se for preciso ligo-lhe e ele dá instruções para eu entrar. Sou uma privilegiada. Mas tu estavas muito inquieta; pelo teu olhar, diria que estavas com medo. Acho que pensavas que te tinham internado numa clínica psiquiátrica. Olhavas desconfiada para o que a enfermeira estava a fazer – era só um iogurte. Choraste muito e eu fiquei destroçada por não poder fazer nada. Querias falar, falavas e eu não te entendia... Choravas e eu não te podia consolar... Que desespero. Li-te um poema do P. É assim:

Nicha,
será mais viva a tua presença
No eco semanal das palavras...
Ou neste terrível silêncio delas?
Em oração,
Na tua dor,
Do meu para o teu coração
Entorno Amor.

Choraste. Choraste muito. Queres que os teus amigos te vão ver. Alguns vão, mas tu estás adormecida e não te apercebes. Outros não vão. Creio que isso será uma das coisas mais difíceis com que vais ter que lidar. Nem todos aguentam este teste de paciência e perseverança. Pediste, insististe para que eu ligasse ao J: querias falar com ele. No meio do teu discurso, tinhas algumas ideias completamente disparatadas e não consegui arranjar-lhes algum nexo. Deve fazer parte dos medicamentos que tomas e dos que deixaste de tomar.

Falaste de uma imagem que te deveria corresponder, num grupo de pessoas que ia por um caminho. Era suposto eu saber do que estavas a falar. Não sabia, e fiquei frustrada por não ter a certeza do que falavas. Não sei se era qualquer referência que, para nós, fazia sentido; ou se era mais um devaneio provocado pela medicação.

Perguntaste se eu não sabia que não te importava morrer. Sei que não. Perguntaste se eu não sabia que não te importava o que te acontecesse ali no Hospital. Sei que não. O que te importa mesmo é... e não consegui perceber o resto. Vês como é frustrante visitar-te com aquele vidro de permeio?

Choraste muito quando perguntaste pela C. Dói só de pensar na tua dor.

Em resumo, dói ver-te há três semanas neste estado. Dói muito mesmo. E preciso de ti. Cá fora, de cabeça fresca. Parece-me que vou ter de passar sem ti, nos próximos tempos. Descobri que tenho um nódulo na mama esquerda. Já marquei a mamografia e a ecografia e a consulta posterior. Mas é mesmo contigo que tenho que falar disto e do que significa em termos de mudança de vida. Boa altura para te chamuscares! Linda, fazes-me falta. Vem depressa.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Coincidências... (6)


11.10.2005

Olá Maria Bicha,

Foste ontem operada: remendaram as costas com mais pele retirada de uma coxa. Parece que no peito não haverá necessidade de operação, uma vez que a pele que foi afectada regenerará sozinha. Correu tudo bem, como era suposto. O J deu notícias, dizendo que até abriste os olhos, embora não tendo consciência do que te rodeia (pensa a gente).

Hoje ainda deves estar adormecida, penso eu. Claro que tu estás sempre a dormir quando te vou ver, cabra!

Estou tão só. Fazes-me falta. De repente, parece que eras a única pessoa com quem podia falar para além do trivial e do óbvio. Acho que não eras. Ou até serias, sei lá... Como estavas sempre aí, não dava pela falta de mais alguém. Agora, parece que não posso dizer a ninguém o que sinto, o que penso. Que estupidez!

Neste fim de semana que passou, estive a falar com a C sobre ti. Ela gosta de ti verdadeiramente e é equilibrada. Gostei de estar a conversar com ela.

Vou trabalhar e aguardar mais notícias tuas. Ah, tenho um telemóvel novo... Importante, hum?

Jocos


12.10.2005

Oi.
Tenho novidades. São tuas e, portanto, também as sabes... mas, ultimamente, tens andado um pouco esquecida! É melhor contar-te. Ontem não fui ao hospital. Liguei ao J e ele não atendeu. Só ligou de volta às 20h10: quando saiu do hospital. Estava eufórico. Disse que te tinham tirado o ventilador; só tinhas uma máscara (como ao princípio) e que falavas e estavas bem acordada. A tua sobrinha A também lá estava. Começaste a refilar (o que para ele é um bom sinal... valha-me Deus!) e pediste um cigarro. Como ele não to deu (obviamente), disseste que ele era um chato. Ou seja, nem na Unidade de Chamuscados dás férias ao teu ascendente leãozinho... também disseste uns disparates pelo meio, a medicação faz-te ter altos e baixos. Parece que estavas preocupada com o facto de estares atrasada para um jantar qualquer... O J disse para não te preocupares que o jantar já estava desmarcado... Hihi. Estás mesmo passada!

Hoje vou ver-te. Espero que não te tenhas ido abaixo e continues a respirar sem ventilador. Preciso de falar contigo: mesmo falar. Quero tanto que estejas desperta e em condições de comunicar...

Vou levar-te uns trânsitos para tu interpretares. Faz-te bem estimulares o raciocínio, para não ficares estúpida com tantos medicamentos.

Jocos e até logo.

sábado, janeiro 26, 2008

É fim de semana...

Faz-se um intervalo na história e aproveita-se para descontrair um pouco.

Deixo-vos um video com uma canção que adoro: Alfonsina y el mar, numa versão da Shakira. Procurem outras versões pela Simone e Mercedes Sosa, por exemplo. Vale a pena.


sexta-feira, janeiro 25, 2008

Coincidências... (5)

10.10.2005, 2ª feira

Olá Mal Agradecida,

Dia 7 lá continuaste dormindo o teu sono de ausência com que nos temos que contentar. No entanto, sábado, dia 8, foi um bom dia. Recebi um telefonema da A dizendo que tinha estado no quarto ao pé de ti, que tinhas pedido uma televisão, estiveste a falar com ela, muito desperta e bem disposta (dentro do que é possível).

Pouco depois também ligou a T a dizer que tinha estado a ver-te (por detrás do maldito vidro) e que estavas bem. Falei com o J logo a seguir e ele já ia a entrar no Hospital com a dita televisão. Isto é assim? Pedes e de imediato o teu desejo é cumprido? Não sei se estás a ver a coisa?! Mais tarde, falei novamente com o J e percebi que ele tinha ficado chateado por terem entrado no quarto. Roubaram-lhe a possibilidade de ele entrar. O primeiro dia em que podia verdadeiramente estar contigo e não pode. Como eu o compreendo! Percebo agora que desenvolvemos sentimentos estranhos quando uma pessoa muito próxima está isolada e adormecida como tu estás. Também eu “odiei” a A por ela ter tido o que eu ainda não consegui ter nestas semanas. Não há dúvida: apropriamo-nos da doente. Queremos que ela veja que nos a visitamos, queremos ser nós a dizer-lhe aquela palavra amiga que vai fazer a diferença. Como somos ridículos...

Como o J sabia que eu ia ao Hospital ontem, domingo, telefonou para lá e deu autorização para que eu (e só eu... ridícula again...) pudesse entrar. Ou seja, ele prescindiu de estar contigo para que EU estivesse. Achava que tu preferirias falar comigo. Ele estaria contigo hoje, por exemplo. Fiquei tão agradecida! Nestas alturas, ficamos ligados a pormenores que, noutra altura, nos passariam despercebidos.

Nem imaginas como estava contente por poder ir junto a ti: aquele vidro e aquele telefone já me estão a tirar do sério. Não consigo estar contigo assim. Raramente fico muito tempo, porque não sei o que faço naquele corredor a espreitar para dentro de um quarto e a falar sozinha.

Pois, mas Tu tinhas que estragar tudo, não é? Então, eu vou lá para estar contigo e tu estás a dormir profundamente... Que balde de água fria! Lá estive eu no corredor a fazer a mesma figura de sempre. Não valia a pena queimar a hipótese de alguém estar contigo. Como o J ia lá mais tarde, talvez tu estivesses mais desperta e ele pudesse falar-te. As enfermeiras também me aconselharam a não ir. Gaita!

Depois acabei por não saber mais nada de ti. O J ficou de ligar, mas deve ter tido qualquer impedimento. Não quis estar a chateá-lo com mais telefonemas. Ontem falei com ele a sério e disse-lhe que achava que ele estava a ser extraordinário contigo. Disse-lhe também para ele não exagerar e tirar um dia só para ele, para ir à caça, para fazer o que quer que lhe desse gosto. Temos muito tempo pela frente e não interessa estoirar logo no primeiro mês. Ele respondeu que tentava manter a vida dele organizada, mas fazia questão de te ver todos os dias. A mim, parece-me extremamente cansado. Ele tem sido impecável.

É possível que hoje sejas novamente operada. Depende do teu estado aquando da visita matinal dos médicos.

Quando estiveste desperta (no sábado), o J esteve a contar-te tudo o que se passou durante estas duas semanas, inclusive o incêndio. Segundo ele pode perceber, tu não te lembravas de nada e nem sabias mesmo que estavas queimada, nem que hospital era aquele. Quando falei contigo, dois ou três dias depois do acidente, perguntei-te se te lembravas do sucedido e respondeste que sim, mas que nem querias falar disso. Nesse momento, pela tua reacção, tive a certeza de que te recordavas. Que grande baralhação que anda nessa tua cabeça! Com tantos sedativos e tanta morfina não admira que tudo seja uma grande nebulosa para ti. E para nós é uma luta diária de perseverança e paciência. Vamos ver quanto tempo dura a nossa fé. E quanto tempo dura a tua...

Jocos

(No dia 8.10.2005, descobri o nódulo que iria mudar a minha vida para sempre)

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Coincidências... (4)

06.10.2005, 5ª feira

Maria Bicha,

Fui ver-te ao hospital. O Paulo foi comigo. Desde domingo que não te via e só ia sabendo de ti pelo J, pela C e pela T. Hoje foi o dia em que me custou mais estar ali a ver-te naquele estado, que eu nem sei qual é, e essa deve ser a razão pela qual a minha angústia é tão grande. Não sei como estás, não sei o que pensas, nem sei se pensas sequer.

Não consigo ver-te assim. Sei que isto é de um egoísmo terrível, mas é muito complicado estar a ver-te e não poder fazer-te nada. Começo a odiar aquele vidro que nos separa e aquele telefone que me lembra constantemente que não sei o que te dizer. O que se diz a uma pessoa no teu estado? Tenho a certeza que tu sabes e se fosse eu a estar ali, tu saberias bem o que me dizer e já estarias dentro do quarto ao pé de mim. De certeza que já terias moído a cabeça a todo o staff, e só para não te aturarem já te teriam deixado ir para o pé de mim. E eu não sou capaz de fazer nada disso. Fico ali de nariz colado ao vidro a dizer-te banalidades ao telefone, com o sentimento de que me roubaram alguma coisa. Que patética! A roubada foste tu. Foste tu que ficaste suspensa num nada de dor e sedativos, com os olhos vidrados de alucinada, com um sopro sofrido de ventilador, os apitos cadenciados de uma máquina, a boca ansiosa por falar, dois simulacros de braços que se agitam teimosamente a mostrar que estão vivos e mais nada.

Não sei se te devo dizer que dia é hoje, se o tempo para ti é importante, se te dás conta da passagem dos dias e das noites, se tens alguma noção de que já passaram quase duas semanas. Duas semanas ali, virada para o tecto, sem participar do mundo, não sei se ansiosa por veres rostos conhecidos, se desejosa de que eles não apareçam. Não sei se te fazemos bem em estar ali. Às vezes penso que as visitas devem ser o que de mais importante acontece no teu dia vazio. Outras vezes, penso que é melhor estares nesse limbo em que te encontrei hoje, sem consciência de onde estás, porquê, desde quando, como, enfim... sózinha. Depois penso que devo ser eu que prefiro pensar que estás melhor sózinha, para não me sentir mal por não estar contigo. Na realidade, quero e não quero ir ver-te. Faz-me mal ver-te assim. Ganda amiga que arranjaste!

O J ligou-me agora. Montou-se um esquema de informações com os amigos e os enfermeiros, de modo a não estarmos todos a ligar para o hospital e uns para os outros. Assim, o centro de informações é o J e na segunda linha sou eu. Por isso, cada um que vá aí, fala com um de nós e depois distribuímos as notícias. Nisto, estamos a funcionar bem.

Que impotência estar ali! Aquele vidro, aquele telefone. Não pertences a ninguém. Estás longe; estás tão distante nesse teu mundo nebuloso. No dia em que fui ver-te e tu falaste comigo (e disseste aqueles palavrões que tu dizes com tão boa pronúncia...) foi tão mais fácil. Eras tanto a Nicha do costume... Esta Nicha eu não conheço. Esta que dorme e quando abre os olhos vem de um universo que eu desconheço, e que me olha e eu não sei se me vê, e que me vê e eu não sei o que pensa. O que lhe digo? E como posso eu aprender a lidar contigo se tenho um vidro entre nós?
Já deves ter reparado que ainda não parei de reclamar. E tu? De que reclamarás tu? Sim, porque motivos não te faltarão...

Disse-te uma coisa que espero que tenhas ouvido: disse-te para escolheres outra vez. Acho que tenho a infantil esperança de que isso dispare algum gatilho mental e te lembres de que há outras alternativas. Já funcionou anteriormente. Lembras-te? Escolhe outra vez. Seja o que for, mas escolhe agora com o nível de consciência que é o teu neste momento. Renega todos os votos de aprendizagem através do sofrimento que possas ter feito no passado e liberta-te. Seja isso o que for. JÁ CHEGA! Já chega de dor. Escolhe outra vez e escolhe diferente.

Estou como o outro: Doutor, dói-me o peito. Dói-me o peito do cansaço, dói-me o peito do trabalho... Dói-me o peito, ó cara...!

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Coincidências... (3)

04.10.2005, 3ª feira

Olá Maria Bicha,

Estive estes dias sem escrever e tu estiveste estes dias sem respirar (por ti, claro!). Já foste operada ontem, segunda-feira, e correu bem. Começaram por um dos braços e foram retirar pele a uma coxa. Estava com bastante receio da operação acontecer contigo ainda ligada ao ventilador, mas os senhores parecem saber o que fazem e tudo correu bem.

Desde quinta-feira da semana passada que estás a dormir (sedada) e ventilada. Fui ver-te, falei contigo, mas não me ligaste nenhuma... Falo na mesma; tenho alguma convicção de que ouves, se é que estás ali. Não me parece... Deves andar a passear, aproveitando o facto de não teres que carregar o teu corpo contigo. Pareces ter desistido, mas não tenho a certeza disso. E enquanto não a tiver, eu própria não desisto. Quero que fique aqui escrito, já que dizê-lo não consigo, que no dia em que decidires partir, eu vou estar contigo, triste, mas respeitando a tua decisão. A Unidade dos Chamuscados não é lugar para ti. Chamuscados é mais giro do que Queimados, não é?

Não tenho ido todos os dias ver-te. Acho que me estou a poupar para quando tu precisares ainda mais de nós: quando acordares. Aí vai ser o grande teste para todos: tu, aceitares a mutilação, as marcas, a dependência e a recuperação. Nós, aceitarmos que, embora ao teu lado, não somos suficiente para teres vontade de viver e lutar. E vamos ter que ter força e persistência para uma batalha longa e de fracassos.

Tenho tido notícias tuas diariamente através do J.

Dou por mim a falar contigo de coisas triviais. Apercebo-me que estás na minha vida desde que me conheço como adulta. Sei viver muito bem sem ti. Já passamos longos períodos sem comunicação alguma, mas existias e eu sabia disso. Só não te queria por perto, era doloroso demais. Ainda não tinha aprendido a viver com pessoas com caminhos tão diferentes do meu. Bom, talvez ainda não tenha aprendido, mas olha que tu bem tens tentado ensinar-me.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Coincidências... (2)

29.09.2005, 5ª feira

Olá Fofinha,

Ontem, quando saí do Hospital, vim muito contente. Estavas francamente melhor: sem ventilador, sem tubo, com uma máscara, bem mais lúcida que no dia anterior. Conseguiste dizer algumas coisas, não percebi quase nada – a máscara não ajudava nada! Quiseste saber que dia era e ficaste surpreendida por já ser quarta-feira. Contei-te com tinham sido os teus dias desde domingo. Disse-te que estava a fazer o teu diário: sorriste.

Não te lembravas de eu ter estado contigo no dia anterior. Chamei-te cabra: deste-me um sorriso enorme e não te lembravas... Afinal, sorris para qualquer uma!

Rimos um pouco e como não podia deixar de ser, quando eu não percebi nada do que disseste, saiu-te: Car...! ...oda-se! Isso, eu percebi... Dizes essas coisas com muita convicção...

Entretanto chegou o J. Disse-me que tu tinhas pedido para lhe telefonarem. E que sabia que estavas bem melhor. Era verdade: eu tinha lá estado e vi.

A tua recuperação física vai demorar bastante. Não sei se tens consciência disso. Agora também não é importante. Cada dia só representa um dia...

Hoje, aí pelas 9h45 da manhã, o J ligou-me. Disse que o cirurgião lhe tinha falado e dito que tinhas tido um retrocesso: paraste de respirar e foste ligada novamente ao ventilador, fortemente dopada. Ou seja, voltámos a segunda-feira... Sabemos que tudo isto é possível e até provável, mas é um balde de água fria. Claro que a cirurgia foi adiada, não se sabe bem para quando: sexta ou segunda... Merda, estava tudo a evoluir sem sobressaltos de maior! Porque paraste de respirar? Foi a agitação de veres os teus filhos? Foi a tosse terrível que te ataca? Até a privação dos cigarros é complicada, não é? Nós sabemos que isto pode acontecer, mas pensei que essa fase já estivesse afastada.

Vai ser assim ao longo destes meses: altos e baixos. Alegrias e desalento. É bom que nos habituemos todos.

Enviei um mail à C e pedi-lhe que desse a notícia aos amigos que ela ache que tu gostarias que soubessem.

Respeito qualquer tua opção por mais absurda que me pareça. Como, aliás, me têm parecido as tuas últimas opções, direcções, companhias... Acho que entraste num (novo) processo de autodestruição. Mas já aprendi com a experiência anterior, que não posso, não devo e não quero interferir nas tuas decisões. O teu percurso é diferente do meu; as tuas escolhas estão de acordo com o que escolhes aprender. Quem sou eu para considerar que isso não serve os teus propósitos mais altos...

Fica em paz, nem que seja com os drunfos que te dão no Hospital. Bem precisas! Beijinhos

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Coincidências...


A vida é gira. Estranha. Esquisita. Faz-nos pensar. Faz-nos duvidar. Faz-nos acreditar.

Vi um post no blog da Carla contando a “coincidência” de o seu diagnóstico e o da Isa terem um dia de diferença. Duas amigas, dois dramas, duas lutas, o mesmo tempo.
E lembrei-me (como é que ainda não me tinha lembrado de contar isto?!) que, andava eu em exames e ânsias para saber o que tinha, e a minha amiga de sempre (sabem?! aquela que sempre nos acompanha... que conhecemos desde sempre...) estava deitada numa cama da Unidade de Queimados do Hospital de Santa Maria. Ela foi a protagonista de um incêndio com direito a notícia no jornal. Treze dias depois, a 8 de Outubro, encontrei um nódulo na mama esquerda, começando esta nova fase da minha vida, sem ela a acompanhar-me. Nos próximos posts, irei publicar partes de um diário que lhe escrevi enquanto ela esteve inconsciente no HSM.

“28.9.2005, 4ª feira

Maria Bicha,

Vou começar a escrever esta espécie de diário para ser um pouco a memória dos dias que passam e que tu agora não tens.

Vou voltar um pouco atrás e enquadrar a tua breve e dura história.

No dia 25 de Setembro de 2005, estavas em casa da tua amiga P e, tanto quanto diz o Correio da Manhã, deflagrou um incêndio na sala onde dormias. Uma vela, um cigarro, não sabemos, tu um dia dirás. Podes ler a notícia. Comprei o jornal já a pensar em refazer a tua memória, quando recuperares. Na segunda-feira (dia 26) o J telefonou-me a contar o sucedido. Estavas inconsciente, com o ventilador e não se sabia se viverias ou não.

Terça-feira (dia 27) de manhã voltei a falar com ele e combinámos ir ao Hospital de tarde. Quando lá chegámos, já não tinhas o ventilador. Tinham-to tirado à experiência. Mantinham o tubo para a eventualidade de não conseguires respirar sozinha. Estavas adormecida, mas consciente. Falámos com a médica que estava a dar apoio à Unidade de Queimados. Disse algumas coisas, mas a comunicação verbal não era o seu forte.

Fomos ver-te. Claro que me tinha preparado para te encontrar mal, mas nunca é como nós imaginamos. Só de imaginar o que tu tinhas sofrido, estavas a sofrer e o sofrimento que tinhas pela frente, fiquei com o coração partido. Pedi à médica para te falar. Acordaram-te e olhaste para a janela de vidro. Durante uns largos instantes, não deste qualquer sinal de reconhecimento: os teus olhos estavam vazios. Depois, iluminaram-se e tu fizeste a coisa mais doce e mais dolorosa que era possível naquela circunstância: no meio dos tubos que tinhas na boca e no nariz, conseguiste fazer o sorriso mais encantador que já vi. Estavas ali e eu estava contigo. Naquele momento não havia mais nada.

Falei contigo. Tentei acalmar-te e dizer que tudo estava bem. A tua mãe estava bem. A tua filha estava bem. Calculei que fossem estas as tuas preocupações maiores. Não sei, talvez não fossem, porque tu tentavas dizer qualquer coisa. Não te consegui entender e ficaste muito agitada. As enfermeiras foram tentar acalmar-te e arranjaram-nos um código: se quisesses dizer sim, piscavas o olho esquerdo. Lá fomos comunicando desta forma, mas o que tinhas para me dizer não consegui descobrir.

Foi inevitável chorarmos dos dois lados do vidro. Tu por não teres outra alternativa a estares ali, queimada, com dores, presa e com o futuro penhorado. Eu por não poder fazer nada por ti.

Quando me apercebi que estavas demasiado inquieta, aproveitei uma altura em que fechaste os olhos e sai dali. Não sem antes ter-te enviado um beijo a que correspondeste com uma piscadela do olho esquerdo, tal como a enfermeira nos ia ensinando.

Encontramos a médica que te estava a seguir e veio das Urgências ver como estavas. Esperámos e quando ela voltou disse o que já sabíamos: o ventilador, as hipotéticas infecções, valores muito baixos de proteínas (disse que estavas verdadeiramente subnutrida), anemia, desidratação.... Enfim, já sabíamos de tudo isso. Ela foi amorosa e explicou que estavas a rejeitar toda a alimentação que te estava a ser dada. Intravenosa era impossível, não sei muito bem porquê. Tinhas a sonda, mas tudo o que ingerias ficava no estômago, incapaz de qualquer movimento que impulsionasse os líquidos para os intestinos. Daí a tal matéria com aspecto fecal que tinha sido referida pela primeira médica. Não havia refluxo dos intestinos para o estômago, como ela fez questão de frisar. Iam colocar-te uma sonda directa aos intestinos.

Perguntei se, dentro do que era habitual para estas situações e não pensando em possíveis infecções, poderia dar uma previsão do que iria acontecer. Ela explicou que é impossível fazer prognósticos: os queimados são doentes de risco elevado, sempre muito complexos e com registos muito traumatizantes. Mas ela esperava o cirurgião para saber quando iria começar o calvário de operações para substituir a pele queimada. A previsão dela era de 1 a 2 meses de internamento, variando de acordo com a tua resistência e capacidade de recuperação das cirurgias e o facto de aparecer ou não alguma infecção – sempre o tema das infecções...

Isto do ponto de vista físico. O resto, seriam anos de acompanhamento psiquiátrico.

Devo render, mais uma vez, as minhas homenagens àquela médica. Acreditas que chorava quando eu chorava, dizendo que a situação era brutal quer para o doente quer para as pessoas mais próximas? Não escamoteou nada em termos de futuro, mas deu apoio e fez-me sentir que se podia contar mesmo com ela.

Vim embora contente por teres largado o ventilador e esmagada pela tarefa que tinhas pela frente. Só me apetecia gritar: porquê? Porque é que contigo tudo tem que ser sempre tão difícil? Não podias ter escolhido um percurso mais fácil?

Hoje já é quarta-feira – dia 28. Os dias vão passando normalmente para todos nós. E como passarão eles para ti? Será que já pensaste que a tua zona mais atingida foi a dos membros superiores? Será que já pensaste que poderás não ter mãos para fazeres uma festa à tua filha? Será que te passou pela cabeça que vais ficar inválida para sempre? Será que imaginaste que não vais usar um fato de banho na praia? Ou será que superarás tudo isso? Ou será que farás sempre festas a toda a gente com o que te sobrar das mãos? Ou será que vais conseguir descobrir que quem tu és não depende dos braços, do peito, nem de alguns centímetros quadrados de pele? Ou será que eu falo assim porque não estou deitada, imóvel, a olhar para o tecto da Unidade de Queimados do Hospital de Santa Maria?

O J já falou para o médico e confirmou que serás operada amanhã - quinta-feira, dia 29. Disse ainda que os teus filhos rapazes irão hoje ver-te. Estás mais desperta e a reagir bem. Espero ir ver-te e se possível falar contigo. Vou te contar que estou a escrever o teu diário. Sei que gostarás. Não te vou dizer nada que te magoe. Até por que tu já te magoaste o suficiente.

O que é que eu sinto? Combato este sentimento permanente de culpa por estar bem. Por andar na rua e apreciar a natureza enquanto tu estás presa. Por conseguir rir e dançar enquanto tu estás a lutar por respirar sozinha. Sei que o melhor que posso fazer por ti é estar bem e firme para te apoiar. Sei que isso vai ser assim nos próximos anos. Sei que isto é um jogo de paciência e perseverança e sei que essas características não são o teu forte. Não eram. Agora, vais aprendê-las, quer queiras quer não. É a tua sobrevivência que está a ser discutida.
Até já.

domingo, janeiro 20, 2008

Anixinha


Até sempre, minha querida

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Cientistas descobriram origem da leucemia infantil

PortugalDiário online
2008/01/18 14:44

Um grupo de cientistas britânicos descobriu a mutação genética que origina a leucemia infantil, depois de seguir duas gémeas, uma afectada pela doença e outra sã.
O estudo, publicado na revista Science, é qualificado pela comunidade científica como «um grande passo», que permitirá o desenvolvimento de tratamentos específicos, menos intensivos e menos agressivos.
A investigação - feita pela universidade de Oxford, o hospital infantil Great Ormond Street, de Londres, e a associação de investigação médica Cancer Research - explica que o desenvolvimento do cancro das células sanguíneas na infância requer que um «reduzido, mas crucial grupo de células» sofra duas mutações.
A primeira produz-se durante o primeiro período de gestação, o que faz com que algumas células da medula óssea se convertam em «pré-leucémicas».
Porém, para que a criança desenvolva a doença, é necessário que uma segunda mutação ocorra durante os primeiros meses de vida.
Esta segunda modificação genética, provavelmente causada por uma infecção comum, como uma constipação, alteraria o estado das células pré-leucémicas para células malignas.
«Estas são células que causam e mantêm a doença», disse o professor Tariq Enver, responsável da investigação e membro da Unidade de Investigação Hematológica Molecular da Universidade de Oxford, salientando que, agora que são conhecidas estas células, é mais fácil "encontrar o seu calcanhar de Aquiles e combatê-las".
Os investigadores averiguaram que estas células resistem à quimioterapia, pelo que o risco de recaída é elevado.
O estudo indica também que um por cento das crianças tem células pré-leucémicas, mas destas só um número muito reduzido sofre a segunda e perigosa mutação.
Os cientistas britânicos chegaram a estas conclusões depois de estudar as gémeas Olivia e Isabella, de quatro anos, residentes em Kent, no Sul de Inglaterra.
Ambas tinham células pré-leucémicas, mas só uma das meninas desenvolveu a doença.
Quando estavam no útero materno, as células de uma das pequenas sofreram uma mutação que as converteu em pré-leucémicas e foram transmitidas por sangue à outra.
Uma infecção comum de que sofreu Olivia fez com que essas células sofressem a segunda mutação genética, o que levou a que a menina ficasse doente com leucemia.
Isabella ainda tem 10 por cento de possibilidades de sofrer este tipo de cancro - porque pode ainda produzir-se a segunda mutação -, mas o risco irá diminuindo até que desapareça na adolescência, quando as células pré-leucémicas serão erradicadas.
A investigação foi recebida com entusiasmo pela comunidade científica no Reino Unido.

Bom fim de semana...


... para todas e todos!

Amanhã, a Mimas faz um bué de anos, por isso, MUITOS PARABÉNS... YEAHHHHHHHHH...


Para quem anda a fazer tratamentos, desejo umas "mocas" levezinhas.


E para quem recupera de cirurgias, boas cicatrizações!


Em suma, um excelente fim de semana.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Consolas Wii


Sabem do que é que eu sou mesmo fã? De Consolas Wii...! Não sabem o que é? Claro! Incultas!

Nada melhor para aliviar o stress e, ainda por cima, queima calorias...! Investiguem. E vão ver que os vossos filhos sabem bem do que estou a falar...


segunda-feira, janeiro 14, 2008

Como se escreve a tristeza?

Como se escreve a tristeza?

Debato-me com o écran branco (que falta de poesia; antes desta era, era com o papel branco que se angustiavam os escritores...).

E irrito-me com esta falta de liberdade que me dou, de pensar primeiro em quem lê e só depois em mim, que escrevo. E o que me preocupa em quem lê? Que esta tristeza, que eu não sei escrever, possa passar para quem lê, que possa assustar, que possa entristecer. Não quero. Mas não sei evitar.

Diz-se, e eu também digo, que estas doenças que nos confrontam com a morte, têm o grande mérito de nos fazer viver a vida. É verdade. Tão verdade que, às vezes, nos impedem também de a viver com leveza. Eu explico. Quando olhamos para o futuro, verificamos que ele é uma incógnita ainda mais incógnito quando olhado através dos olhos do cancro. E as prioridades alteram-se. O que é bom. Deixa de ser importante o que não interessa e só nos interessa o que é importante. De tal maneira vamos depurando a realidade, que nos desajustamos da vida do dia-a-dia. Não nos integramos, não pulamos com as mesmas alegrias, não ansiamos por uma camisola nova, os sucessos profissionais são... irrelevantes, ter não interessa, o importante é ser. Mas ser o quê?! Somos tão provisórios... aqui.

Não gosto de me mentir... E não me iludo com alegrias vãs e objectivos feitos para me fazer correr. Digo eu...

Por isso, tenho que dizer que, embora não saiba escrever a tristeza, sei que ela me atacou em Dezembro. E ganhou mais terreno do que alguma vez achei possível. Eu só não sei dizer que estou triste. Mas estou...

E tenho saudades da Anixinha. O meu mundo mudou...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

REIKI

O Reiki é uma técnica de cura espiritual e cura energética. A cura espiritual proporciona o relembrar da consciência universal enquanto a cura energética remove os sintomas da mente que causam desordens a nível físico.

Quando as doenças físicas se manifestam, elas são acompanhadas de importantes mensagens para o desenvolvimento ou despertar espiritual da pessoa que as contrai. A cura energética, por si só, pode resolver desordens mentais que causam problemas a nível físico, contudo, a verdadeira cura não acontecerá a menos que se entenda a mensagem espiritual acoplada à desordem mental.

O Reiki traz harmonia ao lado energético, curando verdadeiramente a mente e o corpo, e proporcionando também mudanças ao nível da consciência

Princípios do Reiki:
Só por hoje...
Não me irrito,
Não me preocupo,
Sou grato,
Trabalho honestamente,
E sou bondoso para todos os seres.


domingo, janeiro 06, 2008

SOCORRO...!


TENHO UM HOMEM DOENTE EM CASA!!!!

Raios partam esta virose... Será que nos vai correr a todos???!

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Virose má!



Febre, dores no corpo e tosse...
Virose má e feia!

Isto não está fácil... Volto em breve.