É só mais um bocadinho!

sábado, abril 29, 2006

Agora, é a sério...

Agora é que era o verdadeiro teste. E eu a pensar que tinha sido antes!

Fui internada novamente, operada, recuperei… Tive ao meu lado a família, os amigos, os colegas de trabalho. Tudo correu bem… Na última noite que passei no hospital, chorei desde as 22 até às 7 da manhã. Foi a maior lavagem de coração que alguma vez fiz. E porquê? Não sei. Porque sim. Porque o telemóvel caiu no chão e não fui capaz de me levantar para o apanhar. Porque estava doente, dependente, com dores, não havia gelo no hospital e eu tinha saudades do tempo em que acordava a confiar na vida. Os enfermeiros que fizeram as rondas da noite não perguntaram nada; respeitaram as lágrimas.

Vim para casa, livrei-me dos drenos, dos pontos, tive uma óptima notícia: não precisaria de fazer quimioterapia; a radioterapia seria suficiente. Isso era mesmo muito bom! Os tratamentos pareceram não ter fim, mas já acabaram… E estou de volta à dita "vida normal"…

Fica por dizer como é que voltei a confiar. Isso ficará para uma nova história! Juntamente com tudo o que ganhei nestes meses.

quinta-feira, abril 20, 2006

Então, e agora...? (5)

Pois, mas não sabia…

Saí do hospital logo no dia seguinte, directamente da recuperação, ainda com os drenos, pronta para festejar a Passagem de Ano. E que festa! Depois das boas notícias que me foram dadas, que mais podia eu querer para o Ano Novo?

A recuperação foi acontecendo, tranquilamente, e embora me tivessem avisado que o resultado só seria definitivo quando as análises à peça operatória estivessem prontas, não me interessou registar essa informação, até porque não batia certa com todo o percurso que eu tinha feito…

Quatro dias depois, na véspera de tirar os pontos e já a sentir-me bastante recuperada, tocou o telefone. O meu coração disparou e foi com muita relutância que atendi. Era do IPO. O Dr. queria falar comigo, disseram. Acho que o meu estômago se contraía ao ritmo das batidas do coração. E a notícia veio: afinal sempre era cancro.

Se tinha sido difícil ouvir o resultado da biopsia dois meses antes, para descrever o que senti naquele momento, não encontro palavras. Tinha que ser operada de imediato para ser feito o esvaziamento axilar. Acho que só consegui dizer: Não!

“(...) Agora é que é preciso que mantenha a sua luzinha acesa. Precisa de ser forte e acreditar. Tem que ser. Vai ficar bem. É só mais um bocadinho…”.

Como explicar a alguém que não era o facto de (afinal) ter cancro que me estava a dar vontade de vomitar? Já tinha recebido essa notícia uns tempos antes e tinha sobrevivido. Só me estavam a dizer que tinha aquilo que já sabia que tinha antes de pensar que não tinha.

Como explicar que a fé que me sustentava estava caída aos meus pés? Como dizer que me sentia traída até ao mais fundo da alma? Como é que eu ia viver depois disto? Fazer outra operação, fazer os tratamentos de quimio e/ou radioterapia que se seguiriam, as eventuais consequências se os gânglios estivessem apanhados, tudo eram pormenores. Tudo eram aspectos práticos que não me interessavam nada. Só conseguia pensar como é que eu ia recuperar de tamanha desilusão. E para quê! Sentia-me a pessoa mais só do mundo. Abandonada.

Desligada da Fonte…

terça-feira, abril 11, 2006

Então, e agora...? (4)

As descobertas sucederam-se e, interiormente, cada vez era mais nítida a escolha que eu havia feito e como podia “escolher de novo”.

Conforme se aproximava a cirurgia, maior a convicção de que tudo estava bem. O meu caminho parecia aplanado por felizes “coincidências”, por datas que se cumpriam contra todas as probabilidades… Intuitivamente, parecia-me importante que a operação ainda fosse antes do ano acabar. Era meramente simbólico, mas nestas alturas isso tem bastante peso. Assim foi: a 30 de Dezembro.

Fui internada de véspera e esse dia foi, no mínimo, cómico quando esperava que fosse muito tenso.

Já depois de ter sido formalizado o internamento, “fugi” e fui almoçar à rua com o meu marido. Ainda falei com o meu médico para uma recomendação final (de que se deixasse ajudar por uma luzinha que iria encontrar no meu coração) e um aviso/profecia (de que se preparasse para assistir a um milagre no dia seguinte). Admito: é preciso alguma paciência para me aturarem… Mas a minha convicção era muito forte e quando as certezas vêm de dentro é impossível não as partilhar.

Depois de jantar (a famosa comida de hospital), fiquei na sala da televisão. Não tardou muito que se juntasse um grupo de mulheres; todas iam ser operadas no dia seguinte. Ora, não é por estarmos internadas e em véspera de cirurgia que vamos deixar de ser mulheres! O disparate e a gargalhada foram o normal para um serão feminino. Acho que o enfermeiro nos deu uns comprimidos para dormir simplesmente com o objectivo de nos calar. Devia recear que incomodássemos os outros doentes…

Tenho óptimas recordações dessa noite e do ambiente que conseguimos criar ali, apesar de tudo apontar para uma altura bem difícil. Não posso deixar de enaltecer a fibra das Mulheres em tempo de adversidade. E essa fibra vê-se não na maneira como conseguem aguentar o sofrimento, mas sim na alegria com que vivem apesar dele.

Recordo com um carinho muito especial a Adélia. Nunca mais a vi e devo dizer que ela até foi um pouco cruel comigo ao relatar publicamente que eu ressonava, mas não vou esquecer nunca como foi carinhosa ao se despedir de mim quando fui para o bloco operatório. Desejo do fundo do coração que tudo lhe esteja a correr bem.

Da cirurgia não tenho memórias, obviamente. A entrada na sala, a conversa com uma enfermeira, a picada da agulha e depois… mais nada.

Quando recuperei a consciência, estava tudo nebuloso. Recordo uma voz (não consegui identificá-la como sendo do meu médico, mas foi) que me disse que eu tinha razão, que estava tudo bem e que a análise efectuada durante a operação não tinha detectado células cancerosas e por isso só me tinham sido retirados os nódulos e não tinham mexido nos gânglios. As palavras não devem ter sido rigorosamente estas: a minha capacidade de reter informação ainda era muito reduzida. Mas consegui compreender muito bem a importância do que me estava a ser dito.

Não sei se sorri ou se o sorriso foi só interior, mas recordo a imensa gratidão que senti. Parece-me que também não fui capaz de falar, mas pensei: Eu sabia!
Eu sabia!

terça-feira, abril 04, 2006

Então, e agora...? (3)

Enquanto os procedimentos médicos estavam a decorrer, outras questões faziam eco na minha cabeça: o que tenho eu a aprender com isto? Que parte de mim foi esquecida e maltratada para estar a lidar com estas sequelas? O que é que a vida me está a mostrar?

Procurei respostas para estas questões junto de uns queridos amigos e Mestres que já me acompanham há alguns anos. A abordagem através das Constelações Familiares (do Dr. Bert Hellinger) veio trazer muitas surpresas.

Mas partindo do princípio de que poucas pessoas sabem que terapia é esta e não querendo perder uma óptima oportunidade para a divulgar um pouco, vou socorrer-me de alguns textos que constam do site desses “anjos” de que vos falei:
http://www.portais.org .

Este sítio é já o espaço onde existe mais informação em português sobre esta terapia e em breve estará disponível muito mais informação sobre a mesma, assim como, tudo aquilo que a envolve (inclusive a teoria dos Campos Morfogenéticos de Rupert Sheldrake).

[''Campo morfogenético'' é o nome dado a um campo hipotético que explica a emergência simultânea da mesma função adaptativa em populações biológicas não-contíguas. Segundo o holismo, os campos morfogenéticos são a memória colectiva a que recorre cada membro da espécie e para a qual cada um deles contribui.].

De uma forma simples, a base das Constelações Familiares é a seguinte: todos temos gravadas dentro de nós, imagens conhecidas e desconhecidas, da nossa família. Estas imagens impõem-nos, duma forma inconsciente, os seus laços subtis, seja no modo como nos relacionamos connosco próprios, seja com aqueles que nos rodeiam, levando a que na nossa vida, surjam situações por vezes problemáticas, causadoras de sofrimento, que em última instância originam, doenças ou comportamentos doentios, os quais, aparentemente, não têm uma explicação racional. Estas imagens inconscientes, causadoras de desarmonias, têm com frequência origem, numa quebra do fluxo do amor.

O objectivo da Terapia Constelações Familiares é localizar onde o amor deixou de fluir, e, duma forma vivencial e profunda trazer à luz essa quebra e, se possível, ajudar a que o amor volte a fluir. E quando o amor volta a fluir, podem acontecer surpresas nos sintomas actuais, ou seja, a sua cura.

As Constelações Familiares mostram-nos como estamos todos ligados duma forma misteriosa. É uma oportunidade para constatar as teorias espirituais milenares que dizem que "somos todos um só ser", assim como as mais recentes teorias científicas sobre a unidade de toda a matéria que existe no Universo. Uma oportunidade para observar como as teorias espirituais e científicas, caminham cada vez mais, em sentidos convergentes.

Não vou aqui transcrever toda a informação sobre as Constelações Familiares; simplesmente pretendo aguçar a curiosidade de quem possa estar a ler este blog e dar uma pequena explicação para melhor entenderem o meu percurso.

Vou propositadamente omitir muitos detalhes das sessões em que participei para preservar a minha privacidade e a da minha família. No entanto, uma coisa ficou muito clara: emoções não resolvidas e não expressadas voltam sempre sob a forma de um qualquer bloqueio. Não desaparecem, ainda que sejam esquecidas e, qual entidade com vida própria, vão crescendo, conquistando o seu espaço e um dia fazem-se ouvir. Este foi o primeiro ensinamento: verdadeiro saber da experiência feito…

Outra coisa que quero que conheçam foi a descoberta de um padrão familiar que, por o desconhecer, também a mim me surpreendeu. Pude comprovar mais tarde, através de registos de um tio já falecido, que eram completamente exactas as datas que emergiram das sessões de terapia. Remeto para um parágrafo anterior em que se diz que “somos todos um só ser” e acrescento que as escolhas da nossa alma nem sempre são compreendidas pelo nosso consciente. Mas é por elas que a nossa vida nos conduz.

O meu avô paterno morreu (com cancro) quando o meu pai tinha dezasseis anos. Não consigo avaliar os danos que este acontecimento lhe causou, mas parece que foi de tal maneira devastador que o meu pai esperou até que eu tivesse dezasseis anos e também ele partiu com um cancro. Continuo a não conseguir (ainda não consigo) avaliar os danos que isso me causou, mas espanta-vos que me tenha sido diagnosticado um cancro exactamente quando a minha filha tinha dezasseis anos?

Que escolha tinha eu feito? E quem me poderia ajudar a alterar o rumo?