É só mais um bocadinho!

Terça-feira, Março 21, 2006

Então, e agora...? (1)

No SPA da Carla. Sim. Foi no SPA da Carla que tudo começou. Dia 8 de Outubro de 2005, sábado. Preparei-me para a massagem que era a minha recompensa pela semana de trabalho, de horários, de noites curtas, de alguns projectos adiados. Saltei para a marquesa e senti uma impressão/dor no peito esquerdo (ainda não estava habituada a chamar-lhe mama…). Fui com os dedos precisamente ao sítio. E eu sempre a pensar que não conseguia identificar o que estivesse a mais… Quando é altura, identifica-se!

Isto não estava aqui, nunca senti, o que poderá ser? Decidi, de imediato, marcar a mamografia e a ecografia mamária na segunda-feira. Não ia esperar nem um dia. Até lá, não iria pensar no assunto. Não valia a pena. Já tinha apanhado um ou dois sustos com uns quistos sem importância. Isto poderia ser só mais um. Ou não… Logo veria.

O resto do fim-de-semana não foi tão descontraído como eu gostaria e não foi tão preocupado como poderia pensar depois daquela descoberta. Passou-se.

Uma semana de espera até fazer os exames. A mamografia correu bem, ou seja, não doeu muito! Já a ecografia teve momentos de alguma angústia. O médico perguntou-me o porquê de estar a fazer um exame oito meses depois do anterior que tinha sido de rotina. Expliquei-lhe a minha descoberta e ele disse que o que eu tinha palpado era um quisto sem importância. O mesmo não se podia dizer de um nódulo que estava no quadrante externo da mama. Parecia-lhe suspeito. Na sua opinião, devia ser biopsado para esclarecer qualquer dúvida. A minha médica poderia propor aguardar uns tempos e repetir exames, mas ele achava melhor não protelar e fazer a biopsia.

A consulta foi tranquila. A médica disse que iria fazer a biopsia, mas sem preocupação. Era um fibroadenoma, com certeza. Fiz a biopsia no Hospital Amadora-Sintra. Estava muito nervosa, mas foi indolor. Aguardei uma semana ou um pouco mais por nova consulta em que a médica já saberia os resultados.

Quis ir sozinha à consulta. Insisti com o meu marido que só ia saber o resultado de um exame, não era preciso ajuda… Mas estava uma pilha de nervos. Esperei mais de uma hora; a médica estava atrasada. Mais nervos ainda… Finalmente, chegou a hora de saber. A médica estava muito bem disposta; brincou com a minha cara de preocupada e finalmente telefonou para o Hospital. No meio de uma conversa animada, foi pedindo para consultarem o meu processo.

Eu não sei se ouvi ou só pressenti! Juro que não ouvi o resto do que a interlocutora do lado de lá dizia, mas aquilo ouvi. Ou só pressenti… Carcinoma ductal invasivo. Ainda consegui ver a mudança de expressão da médica e o seu esforço por manter a conversa normal. Depois já não vi mais nada. As emoções dispararam e só consegui perceber que estava à beira de um ataque de coração. Quis pensar e não fui capaz. Achei que, naquela altura, devia fazer algumas perguntas práticas; era normal querer saber o que significava, o que havia a fazer depois, quais as hipóteses de tudo correr bem, enfim perguntas… Não fui capaz de pensar em nenhuma. Não fui capaz de pensar em nada. Ao fim de algum tempo, consegui articular umas palavras: Então, e agora? E mesmo estas palavras absurdas tinham requerido todas as minhas últimas forças. Agarrei no fax com o resultado, saí do consultório, deixei cair o telemóvel, o fax, o xaile; acho que me deixei cair a mim. Paguei, guardei o recibo e saí para a rua. Não sei bem como…

A rua foi um sítio bom para chorar. Ninguém me incomodou, nem me perguntou o que tinha. Liguei para o meu marido e lá consegui pedir-lhe para me ir buscar. Depois liguei para uma amiga e deixei-lhe no gravador uma mensagem curta: tenho um cancro. E muitos segundos de soluços convulsivos.

O instante em que sabemos que temos um cancro não tem descrição... Para mim, foi uma avalanche de emoções (nem as consegui identificar) que me deixou soterrada debaixo de... Nem sei! Primeiro, não é possível aquele diagnóstico ser nosso, claro! Depois, e repentinamente, deixa-se de saber o que isso significa. Para, no instante seguinte, sucumbirmos ao que isso implica. A seguir a mente pára e não raciocinamos. O coração dispara e não se sabe se é medo, angústia, pena, pânico... sei lá! Isto acontece em alguns poucos segundos... Só que continuamos vivos e é suposto respirarmos, mexermo-nos, fazermos qualquer coisa… O quê? O que se pode fazer depois disto?

3 Comments:

És realmente uma pessoa formidavel,continua com a tua historia ainda vai dar um livro.Espero estar sempre perto de ti nas horas mais difices.Conta sempre comigo.Bjks

21/3/06 21:29  

Agora? Agora é só mais um bocadinho!!
Pois é, o teu relato fez-me reviver o que senti quando recebi o teu telefonema. Também não sei explicar exactamente, mas sei que passei por quase tudo o que relataste, tendo sentido a necessidade de "voar" até ti, o mais depressa que pude!

Sei também que fui até lá em "piloto automático" e telefonei durante o percurso para o meu irmão e para uma grande amiga nossa.

A partir daí, ou melhor, desde que cheguei ao pé de ti, começou a nossa luta conjunta, com toda a força e determinação do Mundo, mas principalmente com toda a tua serenidade e admirável capacidade para enfrentar o que te surge pela frente, independentemente do que seja.

Eu cá estarei, sempre a teu lado, onde, quando e como precisares.
Tu mereces e eu, como bem sabes, adoro-te e admiro-te cada dia mais e mais, és realmente uma Mulher admirável e extraordinária...

Escrevo estas linhas também para que quem esteja na nossa situação (principalmente na tua) tente lutar com todas as ganas, em conjunto com os seus entes mais queridos, porque penso ser esse factor verdadeiramente importante. Falar, falar e falar, nunca esconder o que se sente, mas partilhá-lo com essas pessoas.

Para quem não tenha, por qualquer motivo, essa possibilidade, "desabafe" aqui mesmo, penso que é esse o verdadeiro objectivo deste blog, a partilha de experiências. Por isso digo: não hesite! Conte a sua história, ela é importante para todos!!

22/3/06 00:45  

Oi,amiga
Não que tudo tinha começado no "SPA".Espero que por tudo ter inicio lá seja um bom caminho para que tudo se resolva positivamente.
Estarei sempre lá para te ouvir e de dar a maior força do mundo.

Tu és uma grande amiga e por vezes sem saber já me ajudaste em certas situações onde precisamos de uma palavra amiga.

Por isto tudo e por a grande "MULHER" que tu és quero te dizer que estarei sempre ao teu lado e rezarei tambem por ti e por todas as mulheres que possam estar a passar por situações identicas.
Beijos grandes.

22/3/06 21:27  

Enviar um comentário

<< Home