É só mais um bocadinho!

quinta-feira, março 23, 2006

Então, e agora...? (2)

O que se pode fazer depois disto? Começa-se por fazer o mesmo do costume e isso é muito estranho.
Eu chorei, chorei, chorei na rua. Depois chorei, chorei, chorei agarrada ao meu marido. Chorámos, chorámos. Depois, as lágrimas acabam e começamos a pensar no que está à volta. Como vamos contar isto a uma filha? E como se conta isto a uma mãe que perdeu o marido com a mesma doença? Pois! Conta-se. Directamente, sem floreados, acrescentando que vai correr tudo bem, que foi tudo apanhado no início, que actualmente estas situações se resolvem com alguma facilidade… Todos os lugares-comuns de que nos conseguimos lembrar foram utilizados. E, embora todos tentassem parecer fortes, chorou-se mais durante algum tempo. Depois, numa tentativa de acreditar nos lugares-comuns, todos enxugaram as lágrimas e dispuseram-se a enfrentar a adversidade. Este mecanismo, que o ser tem de fingir que acredita nas mentiras que inventa, tem-se revelado um poderoso instrumento para a humanidade. Pode parecer ironia, mas não é. É uma valiosa ajuda para nos aguentarmos nos primeiros embates, porque na realidade, naquela altura, nada sabíamos sobre a doença, o seu alcance, em que estágio estaria, que intervenção era necessária. Por isso, foi com esta esperança sem bases que passámos mais um dia.

Enviei uma mensagem aos meus amigos contando o que tinha, dizendo, mais uma vez, que tudo ia correr bem, e acrescentando que não queria falar com ninguém. Depois voltaria a contactá-los. Respeitaram, claro, ou não fossem eles as pessoas importantes que me têm acompanhado ao longo dos anos… Ao fim da noite, apeteceu-me encostar a cabeça no ombro do Zé, o meu irmão por opção. Telefonei, ele tinha saído para apanhar ar e digerir a notícia, mas apareceu ao fim de meia hora. Depois das lágrimas e dos abraços iniciais, acabámos a falar das mais variadas coisas e, estranhamente, não era de doenças…

No dia seguinte, o despertador toca, toma-se duche, enfrenta-se o trânsito, vai-se trabalhar. Qual é a diferença? Como é que na véspera estava condenada à morte e agora estou a fazer o habitual?

Como é que, ao longo do dia, os problemas de trabalho exigem a mesma atenção, como é que o diálogo com os colegas se processa da mesma forma, como é que vamos almoçar com o mesmo interesse? É força? Coragem? Inconsciência? Negação? Ou Fé?

A forma como, passado o primeiro impacto, reagi a tudo constituiu um mistério que me deu algum trabalho a analisar. Acho que inicialmente reagi com o peso que o colectivo (eu incluída) atribui a este tipo de doença; depois de se ter tornado uma realidade para mim, comecei a reagir naturalmente e não foi o fim do mundo… Por mais estranho que me tenha parecido!

terça-feira, março 21, 2006

Então, e agora...? (1)

No SPA da Carla. Sim. Foi no SPA da Carla que tudo começou. Dia 8 de Outubro de 2005, sábado. Preparei-me para a massagem que era a minha recompensa pela semana de trabalho, de horários, de noites curtas, de alguns projectos adiados. Saltei para a marquesa e senti uma impressão/dor no peito esquerdo (ainda não estava habituada a chamar-lhe mama…). Fui com os dedos precisamente ao sítio. E eu sempre a pensar que não conseguia identificar o que estivesse a mais… Quando é altura, identifica-se!

Isto não estava aqui, nunca senti, o que poderá ser? Decidi, de imediato, marcar a mamografia e a ecografia mamária na segunda-feira. Não ia esperar nem um dia. Até lá, não iria pensar no assunto. Não valia a pena. Já tinha apanhado um ou dois sustos com uns quistos sem importância. Isto poderia ser só mais um. Ou não… Logo veria.

O resto do fim-de-semana não foi tão descontraído como eu gostaria e não foi tão preocupado como poderia pensar depois daquela descoberta. Passou-se.

Uma semana de espera até fazer os exames. A mamografia correu bem, ou seja, não doeu muito! Já a ecografia teve momentos de alguma angústia. O médico perguntou-me o porquê de estar a fazer um exame oito meses depois do anterior que tinha sido de rotina. Expliquei-lhe a minha descoberta e ele disse que o que eu tinha palpado era um quisto sem importância. O mesmo não se podia dizer de um nódulo que estava no quadrante externo da mama. Parecia-lhe suspeito. Na sua opinião, devia ser biopsado para esclarecer qualquer dúvida. A minha médica poderia propor aguardar uns tempos e repetir exames, mas ele achava melhor não protelar e fazer a biopsia.

A consulta foi tranquila. A médica disse que iria fazer a biopsia, mas sem preocupação. Era um fibroadenoma, com certeza. Fiz a biopsia no Hospital Amadora-Sintra. Estava muito nervosa, mas foi indolor. Aguardei uma semana ou um pouco mais por nova consulta em que a médica já saberia os resultados.

Quis ir sozinha à consulta. Insisti com o meu marido que só ia saber o resultado de um exame, não era preciso ajuda… Mas estava uma pilha de nervos. Esperei mais de uma hora; a médica estava atrasada. Mais nervos ainda… Finalmente, chegou a hora de saber. A médica estava muito bem disposta; brincou com a minha cara de preocupada e finalmente telefonou para o Hospital. No meio de uma conversa animada, foi pedindo para consultarem o meu processo.

Eu não sei se ouvi ou só pressenti! Juro que não ouvi o resto do que a interlocutora do lado de lá dizia, mas aquilo ouvi. Ou só pressenti… Carcinoma ductal invasivo. Ainda consegui ver a mudança de expressão da médica e o seu esforço por manter a conversa normal. Depois já não vi mais nada. As emoções dispararam e só consegui perceber que estava à beira de um ataque de coração. Quis pensar e não fui capaz. Achei que, naquela altura, devia fazer algumas perguntas práticas; era normal querer saber o que significava, o que havia a fazer depois, quais as hipóteses de tudo correr bem, enfim perguntas… Não fui capaz de pensar em nenhuma. Não fui capaz de pensar em nada. Ao fim de algum tempo, consegui articular umas palavras: Então, e agora? E mesmo estas palavras absurdas tinham requerido todas as minhas últimas forças. Agarrei no fax com o resultado, saí do consultório, deixei cair o telemóvel, o fax, o xaile; acho que me deixei cair a mim. Paguei, guardei o recibo e saí para a rua. Não sei bem como…

A rua foi um sítio bom para chorar. Ninguém me incomodou, nem me perguntou o que tinha. Liguei para o meu marido e lá consegui pedir-lhe para me ir buscar. Depois liguei para uma amiga e deixei-lhe no gravador uma mensagem curta: tenho um cancro. E muitos segundos de soluços convulsivos.

O instante em que sabemos que temos um cancro não tem descrição... Para mim, foi uma avalanche de emoções (nem as consegui identificar) que me deixou soterrada debaixo de... Nem sei! Primeiro, não é possível aquele diagnóstico ser nosso, claro! Depois, e repentinamente, deixa-se de saber o que isso significa. Para, no instante seguinte, sucumbirmos ao que isso implica. A seguir a mente pára e não raciocinamos. O coração dispara e não se sabe se é medo, angústia, pena, pânico... sei lá! Isto acontece em alguns poucos segundos... Só que continuamos vivos e é suposto respirarmos, mexermo-nos, fazermos qualquer coisa… O quê? O que se pode fazer depois disto?

segunda-feira, março 13, 2006

A Prevenção e o Medo…

"Cerca de 20% das mulheres que recebem convites para realizar o rastreio gratuito ao cancro da mama recusa com medo do resultado. Esta é uma das conclusões do estudo "Diagnóstico Precoce do Cancro da Mama valorização e práticas de diagnóstico", feita pela Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Associação Laço (AL) e Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS) . "Não pode haver receio porque seguramente haverá consequências maiores", avisa Jorge Soares, da SPS - lembrando que em Portugal, a cada ano, surgem 4500 casos novos. Além disto, a investigação avança que cerca de 40% das mulheres não receberam os convites por não estarem registadas correctamente nos seus centros de saúde.

O estudo, que utilizou duas amostras de população feminina - a das áreas metropolitanas (AM) e as que estão abrangidas pelo Programa Nacional de Rastreio (PNR) - revela que existe um grande nível de informação e conhecimento sobre a matéria. No entanto, regista-se ainda uma atitude passiva de esperar pela sugestão médica ou de considerar que o exame só deva ser feito caso existam alguns sintomas, o que pode ser fatal -uma atitude adoptada por 10% das inquiridas.

Assim, quase metade das mulheres residentes em AM e 40% das que habitam em concelhos abrangidos pelo PNR respondem que o médico nunca sugeriu o exame, enquanto 27,9 % das primeiras e 28% das segundas afirmam que não têm sintomas. "É uma ideia errada pensar que está tudo bem quando não se corre perigo", contrapõe Lynne Archibald, da AL. O próximo passo é aumentar o número de mulheres rastreadas. Este estudo enquadra-se nas iniciativas do mês do Cancro da Mama.” (Diário de Notícias, de 26.10.2005).

Porquê? Num país onde o sistema de saúde não é exemplar, o que levará uma mulher a rejeitar a hipótese de fazer, gratuitamente, um exame que lhe pode salvar a vida?

A palavra ‘cancro’ sempre foi assustadora para todos. A reacção imediata a este diagnóstico é: “acabei de ser condenada à morte”. Apesar da informação e dos grandes avanços terapêuticos obtidos nos últimos anos, a primeira reacção ainda é de desespero.

Todos temos algum familiar ou amigo que morreu com um cancro qualquer. A hipótese de isso também nos acontecer é aterradora. E a reacção é: não quero saber; prefiro não saber.

E por mais absurda que esta reacção nos pareça, quem pode dizer, com plena verdade, que não viveu este dilema de fazer ou não fazer uma mamografia ou um Papanicolau? Parece inconsciência? Não é. É medo.

E por todos termos medo é que é importante haver testemunhos de casos de sucesso, pois só esses exemplos podem ajudar a ultrapassar a barreira que nós próprios construímos. E o que fez com que esses casos fossem casos de sucesso? O tempo e o olhar em frente. Só ganhamos o tempo fazendo da prevenção uma questão de vida. Sem pestanejar. Mesmo que todos os fantasmas nos puxem a cabeça para a areia.

Nesta, como em todas as áreas da nossa vida, o medo é o grande inimigo.

Posso contar a situação que vive, neste momento, uma amiga minha. Ela tirou um nódulo benigno há uns anos. Há pouquíssimo tempo, passou por um susto novamente quando um outro nódulo, que se mantinha estável, inesperadamente começou a crescer e a assumir contornos muito irregulares. Quem passou por isto, deve conseguir imaginar a angústia que ela viveu. Felizmente, o resultado da biópsia foi simpático e o fibroadenoma foi retirado numa cirurgia simples.

Mas, ainda não tinha esquecido o episódio e já outro nódulo se apresenta ao serviço…

Qual é a dúvida dela neste momento? Não lhe apetece passar por tudo outra vez! Quer um bocadinho de sossego antes de voltar a lidar com a angústia e a incerteza. É inconsciente? Claro que não. É um bom exemplo de uma pessoa que cuida bem de si e faz tudo de acordo com as regras. No entanto, está cansada. E esse cansaço poderá ser-lhe fatal. Espero sinceramente que ganhe o que ela sabe ser o mais correcto, apesar da repetição da tortura.

O que eu quero mesmo frisar é que, excluindo os casos extremos de total incúria, entramos numa zona nebulosa de procura de equilíbrio entre a vida dita normal e a atenção não paranóica/vigilante da nossa saúde. Sabemos o que nos dita o bom senso, mas às vezes estamos tão cansados…

Por isso, daqui vos digo:
Vá, Força, é só mais um bocadinho!